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3 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
A State of Trance Festival não nasceu como um festival tradicional. Nasceu como um sinal de rádio, quase como uma frequência emocional. Antes dos palcos, das luzes, dos lasers e das multidões vestidas de preto, branco, neon ou bandeiras nacionais, existia a voz de Armin van Buuren apresentando música nova a uma comunidade espalhada pelo mundo. A State of Trance começou em 2001 como programa de rádio e, com o tempo, tornou-se muito mais do que isso: um arquivo vivo do trance, um selo, uma comunidade global e finalmente uma série de eventos onde milhares de fãs podiam deixar de escutar sozinhos e se encontrar fisicamente na mesma pista.
Essa diferença é essencial para entender o festival. Muitos eventos nascem com um terreno, uma cidade e um modelo de negócio. ASOT nasceu com continuidade. Semana após semana, episódio após episódio, foi educando o ouvido de um público que não via o trance apenas como música para dançar, mas como uma linguagem emocional prolongada. O trance tem algo particular. Nem sempre busca o impacto imediato. Ele constrói, espera, abre espaço, sobe lentamente, se rompe em melodia e depois libera. Seus fãs falam de faixas como lembranças, de breakdowns como paisagens, de drops como voltas para casa. A State of Trance entendeu essa sensibilidade e deu a ela uma casa permanente.
A transformação em festival foi natural. As celebrações de episódios, especialmente a partir de marcos como ASOT 500, transformaram o radio show em um encontro físico da chamada Trance Family. Den Bosch, Utrecht e depois Rotterdam não foram apenas cidades-sede; viraram pontos de peregrinação para uma comunidade acostumada a escutar de longe. Quando ASOT anunciou em 2015 o conceito A State of Trance Festival em Jaarbeurs Utrecht, a marca já tinha anos de história emocional acumulada. O festival não começava do zero. Ele materializava milhares de horas de rádio, sets, votações, hinos, chats, livestreams e memórias pessoais.
Musicalmente, A State of Trance Festival é construído ao redor do trance, mas não de forma congelada. Seu centro está no trance clássico, uplifting, progressive e tech trance, mas ao redor aparecem melodic techno, progressive house, psytrance, hard trance, sons mais escuros, ideias mais rápidas e cruzamentos com a eletrônica contemporânea. Essa amplitude gerou discussões entre puristas, mas também explica por que ASOT continua vivo. A marca não trata o trance como museu. Ela o apresenta como uma língua que muda sem perder sua gramática emocional: tensão, melodia, euforia, comunidade e liberação.
A experiência de um grande ASOT tem algo cerimonial. É indoor, noturna, precisa, imersiva. Não depende de sol, praia ou camping, mas de som, visuais, produção, horas longas e um público que chega com uma conexão muito específica. Em Rotterdam Ahoy, por exemplo, o festival pode funcionar como uma máquina perfeitamente calibrada: áreas diferentes, atmosferas distintas, sets longos, colaborações especiais, clássicos, novos talentos e momentos pensados tanto para quem está presente quanto para quem acompanha a transmissão de outro país. ASOT sempre teve essa dupla natureza: evento local e experiência global.
Armin van Buuren continua sendo o centro simbólico, mas o festival não se resume a ele. Ruben de Ronde, Ferry Corsten e uma longa lista de artistas históricos e novos ajudaram a ampliar a narrativa. Nomes como Aly & Fila, Cosmic Gate, Rank 1, Giuseppe Ottaviani, Andrew Rayel, John O’Callaghan, Ferry Corsten, Arty, Above & Beyond, Markus Schulz, Vini Vici, Ben Gold, Factor B, Laura van Dam e muitos outros fazem parte de um mapa onde nostalgia e futuro convivem o tempo todo.
A State of Trance Festival importa porque representa uma das comunidades mais fiéis da música eletrônica. Não é o festival mais selvagem nem o mais colorido do mundo EDM. Sua força está em outro lugar: na devoção. É um espaço para quem acredita que uma melodia pode sustentar uma multidão, que uma voz sobre um breakdown pode mudar o humor de uma noite e que a música eletrônica também pode parecer íntima mesmo diante de milhares de pessoas. ASOT é festival, rádio, memória e família. Uma celebração trance para quem ainda acredita que a euforia também pode ser espiritual.
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