Ranking
#451
Ranking
#451
Seguidores
150.4 K
2 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
All Things Go Music Festival é um dos casos mais interessantes de como um festival pode crescer sem perder totalmente a voz de comunidade que o tornou especial. Nasceu em Washington, D.C., em 2014, como All Things Go Fall Classic, e com os anos deixou de ser apenas um encontro indie local para se transformar em uma marca de festival reconhecível, emocional e muito ligada a uma nova geração de fãs que vivem a música como identidade, refúgio, fandom e linguagem compartilhada. Sua expansão para Maryland, New York City e Toronto não parece apenas crescimento de negócio; parece a ampliação de uma comunidade que encontrou sua estética, seu público e seu momento cultural.
Sua história começa em um lugar bem diferente do modelo tradicional dos grandes festivais. All Things Go vinha de um blog musical, de uma sensibilidade curatorial digital, daquela época em que descobrir canções na internet, compartilhar playlists e seguir artistas emergentes podia fazer você se sentir parte de uma cena mesmo sem estar em uma grande cidade musical. Quando essa voz passou ao formato festival, fez isso com uma lógica muito clara: não programar apenas por tamanho, mas por conversa cultural. Desde suas primeiras edições, com nomes como Future Islands, Tove Lo, HAERTS, Bear Hands ou Panama Wedding, All Things Go entendeu muito bem o cruzamento entre indie, pop alternativo, blog-era, artistas em ascensão e público jovem com vontade de descobrir antes que tudo explodisse.
A identidade do festival ficou ainda mais forte quando começou a curar cartazes com uma presença muito marcada de mulheres, artistas queer e vozes que nem sempre ocupavam o centro em outros festivais de grande formato. Essa decisão não foi cosmética. Com o tempo, All Things Go se tornou uma espécie de ponto de encontro para um público que queria ver no mesmo lineup artistas falando de desejo, vulnerabilidade, identidade, amizade, ansiedade, desamor, autoafirmação e comunidade a partir de lugares mais abertos do que o pop tradicional costuma permitir. Por isso, o festival não se explica apenas por gêneros musicais; explica-se por uma sensibilidade.
Em All Things Go, uma canção triste pode ser tão importante quanto um hit dançante. Um set de indie pop pode conviver com R&B alternativo, folk confessional, hip hop, synth-pop, rock suave, bedroom pop, country-pop queer ou pop de estádio. Essa mistura funciona porque o festival não parece programar a partir de compartimentos rígidos, mas de afinidades emocionais. Mitski, Hayley Williams, Brandi Carlile, Ethel Cain, MUNA, Carly Rae Jepsen, Janelle Monáe, Chappell Roan, boygenius, Lorde, Kesha, Wet Leg, Lucy Dacus, Doechii, Noah Kahan, Reneé Rapp ou Maggie Rogers podem pertencer a mundos diferentes, mas dentro de All Things Go compartilham algo: uma relação muito intensa com fãs que escutam a música como parte de sua vida íntima.
A mudança e consolidação em Merriweather Post Pavilion também deu outra escala ao festival. Merriweather não é um terreno qualquer: é um venue histórico, confortável, cercado de árvores, com uma relação natural entre palco, anfiteatro, gramado e experiência festivalera. Para a edição de Maryland, All Things Go conserva algo importante: não se trata de correr entre doze palcos e perder metade do cartaz. Seu formato costuma favorecer uma experiência mais concentrada, em que os sets parecem importantes e o público pode viver o dia como uma narrativa completa. Isso é raro na era de festivais gigantes cheios de sobreposições.
A expansão para Forest Hills Stadium em New York City acrescentou outra dimensão. Forest Hills tem um ar diferente: histórico, urbano, elegante, com uma proximidade emocional que não se parece com um festival de campo aberto. Ali All Things Go encontrou uma versão mais nova-iorquina de si mesmo: fãs chegando de metrô, roupas pensadas como declaração estética, público queer ocupando espaço com alegria, artistas de pop alternativo e uma sensação de evento geracional mais do que simples concerto. A edição de Toronto, por sua vez, confirma que a marca já não pertence apenas à área de D.C.; sua linguagem conecta públicos de várias cidades norte-americanas.
O fenômeno All Things Go também fala de uma mudança maior na cultura dos festivais. Durante anos, muitos grandes festivais foram criticados por cartazes dominados por homens, por tratarem o pop emocional como algo menor ou por não entenderem realmente os públicos jovens, queer e femininos. All Things Go construiu parte de sua reputação fazendo o contrário: colocando esses públicos no centro. Não apenas como mercado, mas como comunidade. Por isso sua energia pode parecer uma mistura entre festival, celebração de fandom, espaço seguro e encontro de melhores amigas que passam meses planejando que roupa usar para chorar e cantar ao mesmo tempo.
A experiência real tem algo muito particular. Não é apenas chegar para ver headliners; é chegar a um lugar onde muitas pessoas parecem compartilhar um código emocional. Há cartazes feitos à mão, glitter, botas, laços, lágrimas, abraços, grupos de amigas, casais queer, pais acompanhando filhos, fãs que sabem cada ponte de cada música e artistas que entendem que o público não está ali só por entretenimento, mas por reconhecimento. Em All Things Go, cantar uma letra pode parecer uma forma de dizer “eu também”.
All Things Go Music Festival importa porque encontrou uma maneira contemporânea de ser festival: curado, emocional, inclusivo, expansível e profundamente conectado com a forma como os fãs jovens vivem a música hoje. Sua melhor imagem não é apenas um grande palco em Merriweather ou Forest Hills, mas uma multidão cantando com uma intensidade mais próxima de uma confissão coletiva do que de um show comum. É um festival que entendeu que o pop alternativo, o indie e o R&B emocional não são sons pequenos: são territórios onde uma geração inteira está construindo linguagem, identidade e comunidade.
Linha do tempo
Um artista por ano, o de melhor ranking
Os que mais repetem nas edições desta franquia.
#1Estados Unidos
1 edições · 2023
#2Canadá
1 edições · 2023
#3Filipinas
1 edições · 2023