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4 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
ALSO Festival é um daqueles festivais que entendem que a música pode conviver perfeitamente com uma boa conversa, uma refeição longa, uma risada inteligente, um banho no lago e uma ideia que continua voltando durante semanas. Em Park Farm, Compton Verney, Warwickshire, o festival não tenta se parecer com os grandes eventos de massa do verão britânico. Sua personalidade segue outro caminho: mais íntimo, mais curioso, mais sensorial, mais inclinado a misturar prazer, pensamento e natureza em um mesmo fim de semana.
Seu nome, ALSO, funciona quase como uma declaração editorial. Não é apenas música; também ideias. Não é apenas festa; também descanso. Não é apenas palco; também paisagem. Não é apenas entretenimento; também conversa, comida, bem-estar, ciência, literatura, humor, oficinas e experiências raras. Esse acúmulo de “também” é a essência do festival. Em um mundo onde muitos eventos se definem por um único gênero ou por uma única tribo, ALSO se define pela curiosidade. É um festival para gente que quer dançar, sim, mas também escutar alguém falar de filosofia, provar algo novo, nadar, rir, comer bem e voltar para casa com a sensação de ter usado mais partes de si mesma do que apenas os ouvidos.
O lugar é fundamental para entendê-lo. Park Farm, junto a Compton Verney, não é um recinto neutro. É uma paisagem de Warwickshire com lagos, árvores, caminhos, campo aberto e essa beleza inglesa que muda o ritmo do corpo antes mesmo de começar a programação. O festival aproveita esse entorno não como decoração, mas como parte da experiência. A natureza não está ao fundo: está integrada. Você pode passar de uma conversa a uma caminhada, de um set a um jantar, de uma sessão de comédia a um momento de silêncio junto à água. Essa circulação suave entre estímulos é o que faz ALSO parecer mais uma pequena comunidade temporária do que uma agenda simples de atos.
Musicalmente, ALSO não busca competir com festivais de cartaz gigantesco. Sua força está na curadoria e na mistura. Afriquoi traz essa energia de club global, afrobeat, house e eletrônica orgânica que pode transformar uma noite boutique em uma pista de dança luminosa. Sheep, Dog & Wolf leva uma sensibilidade mais experimental e art-pop de câmara, com camadas, arranjos e uma maneira mais íntima de construir emoção. PVA conecta eletrônica, post-punk, tensão club e modernidade. Tribo coloca percussão de carnaval brasileiro, Steve Pretty pode transformar cinema e música em experiência viva, e propostas como Shellectronica mostram essa parte mais excêntrica, sensorial e aventureira do festival.
Mas ALSO não se entende apenas por seus músicos. A comédia e as conversas são igualmente importantes para seu DNA. Um programa que inclui Mark Thomas, Luke Wright, Elf Lyons, Robin Ince ou Marcel Lucont fala de um festival que não separa inteligência e diversão. Aqui a risada pode ser política, poética, absurda, elegante ou incômoda. As ideias não aparecem como palestras frias enfiadas à força em um festival musical; aparecem como parte natural do fim de semana. As pessoas não vão apenas consumir conteúdo, mas deixar-se estimular por diferentes formas de pensamento.
A edição de 2026, com o tema “Oh Fortuna!”, encaixa muito bem nessa personalidade. Falar de sorte, acaso, encontros e destino em um festival faz muito sentido, porque os melhores momentos festivaleros quase nunca são os que você planeja perfeitamente. São o artista que você descobre por acidente, a conversa que começa na fila, a oficina em que entra sem expectativas, a canção que escuta de longe enquanto caminha, a refeição compartilhada com alguém que acabou de conhecer ou o instante em que decide ficar em um lugar em vez de correr para o próximo. ALSO parece desenhado para que esse tipo de casualidade aconteça.
A experiência real provavelmente se sente mais calma e mais adulta do que a de um festival típico de álcool, filas e pressa. Isso não quer dizer chata; quer dizer mais consciente de seu próprio ritmo. Você pode acordar cedo, nadar, tomar café, entrar em uma conversa, comer algo bem pensado, ver comédia, descobrir um músico que não estava no radar, dançar à noite e dormir com a sensação de que o dia teve várias camadas. Esse tipo de festival funciona muito bem para públicos que já não querem sacrificar conforto, qualidade ou conversa em troca de viver música ao vivo. ALSO entende que crescer não significa deixar de ir a festivais; significa pedir algo mais deles.
Também tem um apelo forte para famílias e grupos mistos. Não é um evento construído exclusivamente para jovens de vinte anos nem para melômanos obsessivos. Pode receber casais, amigos, pais com filhos, leitores, foodies, curiosos por ciência, gente de wellness, fãs de comédia, amantes de eletrônica suave, pessoas que querem escapar da cidade e quem gosta de uma programação onde o estranho e o acolhedor convivem. Essa amplitude não o torna genérico; pelo contrário, dá-lhe uma identidade muito específica: a de um festival para pessoas curiosas.
ALSO Festival importa porque representa uma versão diferente do luxo festivalero. Não o luxo de áreas VIP ou nomes enormes, mas o luxo de ter tempo, paisagem, boas ideias, música bem escolhida, comida, humor e espaço mental. Sua melhor imagem não é uma multidão esmagada diante de um palco, mas um grupo de pessoas se movendo por um campo bonito, entrando e saindo de conversas, rindo sob uma tenda, dançando com Afriquoi, ouvindo sons estranhos ao entardecer e entendendo que um festival também pode ser uma forma de pensar melhor, descansar melhor e viver com mais curiosidade.
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