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2023Body and Soul Festival 2023
Números, sede e manias da casa
Body & Soul nunca parecia um festival construído primeiro ao redor de uma lista de artistas e depois preenchido com decoração. Em Ballinlough Castle, bosque, lago, jardins murados, instalações, cerimônias e música pareciam nascer do mesmo processo criativo. Um caminho podia levar a uma pista eletrônica escondida entre árvores, a uma refeição coletiva, a uma apresentação difícil de classificar ou a uma obra que mudava com a luz. O palco principal importava, mas não explicava o fim de semana sozinho. Grande parte da experiência começava quando o público deixava de seguir o programa e permitia que a paisagem e os sons escolhessem o próximo encontro.
O projeto nasceu da área Body & Soul criada dentro do Electric Picnic em 2004. Avril Stanley e sua equipe desenvolveram ali uma alternativa ao festival dominado por headliners, bares e grandes palcos. As influências vinham de viagens, rituais, cultura de clube, bem-estar, Burning Man e encontros nos quais o público ajudava a construir a atmosfera. O objetivo de criar um evento independente foi realizado em 2010, durante a crise econômica irlandesa. Ballinlough Castle tornou-se a casa de um festival que apostava em imaginação e risco justamente quando iniciar uma produção cultural ambiciosa parecia financeiramente improvável.
Ballinlough não era um terreno vazio preparado para qualquer produção. Jardins, bosques, lago, edifícios e caminhos impunham sua própria escala e narrativa. Durante o dia, as pessoas circulavam entre conversas, oficinas, alimentação, apresentações íntimas e áreas tranquilas. À noite, fogo, iluminação e som transformavam a mesma geografia. O solstício de verão era mais do que uma data conveniente. Ideias de luz, renovação, passagem e libertação temporária apareciam na estética e na progressão emocional do fim de semana, especialmente durante cerimônias realizadas junto à água ou nas áreas arborizadas.
Musicalmente, Body & Soul preferia artistas com identidades criativas marcantes a nomes escolhidos apenas para ocupar o topo do cartaz. Nick Cave & The Bad Seeds, Solange, Four Tet, Bonobo, Jon Hopkins, St. Vincent, Fever Ray, Goldfrapp, John Grant, Caribou, M83, The Gloaming e Fat Freddy’s Drop pertenciam a universos diferentes, mas combinavam com um evento interessado em transformação e experimentação. Indie dividia espaço com eletrônica, folk contemporâneo, soul, hip hop, música africana e projetos difíceis de encaixar. DJs, pistas de dança e palcos noturnos no bosque eram parte central da identidade, não entretenimento secundário depois das bandas.
A música convivia com arte imersiva, teatro, cabaré, circo, spoken word, comédia, podcasts, banquetes, massagens, yoga, banhos quentes e rituais com fogo. Algumas experiências apareciam no horário oficial; outras surgiam de maneira inesperada. Essa densidade podia desorientar quem pretendia apenas assistir ao maior número possível de shows, mas expressava o princípio do festival. O visitante não deveria agir somente como consumidor de uma programação. Era convidado a colaborar com um mundo temporário. Fantasias, jogos, conversas com desconhecidos e participação espontânea criavam uma atmosfera que nenhuma equipe conseguiria produzir completamente antes da abertura.
Depois da interrupção causada pela pandemia, Body & Soul retornou em 2022 com uma decisão incomum. Em vez de crescer para recuperar perdas, reduziu sua capacidade aproximadamente pela metade e aumentou o investimento curatorial. Róisín Murphy, Mogwai, Jon Hopkins, Sampa the Great, CMAT, Pillow Queens e Yves Tumor participaram de uma edição reorganizada em torno de intimidade, circularidade e sustentabilidade. Um público menor permitia perceber melhor os detalhes de Ballinlough. O festival questionava, assim, se o futuro dos grandes encontros precisava ser medido sempre por mais ingressos, mais palcos, mais marcas e mais expansão.
A edição de 2023 foi a última no formato convencional. Alison Goldfrapp, Fever Ray, Moderat, The Blaze, The Murder Capital, Tinariwen, Kurt Vile, Denise Chaila, Kojaque, Kneecap e The Blessed Madonna integraram uma programação que equilibrava atrações internacionais e artistas irlandeses. Hip hop, eletrônica, cabaré, comédia e conversas ocupavam diferentes partes da propriedade. Em fevereiro de 2024, a organização anunciou uma pausa para repensar o projeto. No início, parecia uma interrupção temporária. Durante o ano seguinte, tornou-se claro que a etapa anual em Ballinlough havia chegado ao fim e precisava de uma despedida consciente.
A.Wake reuniu apenas 750 pessoas em agosto de 2025 para música, arte, comida, fogo e rituais inspirados no velório irlandês. Não houve anúncio público de artistas, e a organização insistiu que não se tratava de outra edição do festival. Foi o gesto final de uma comunidade que não desejava encerrar quinze anos por meio de uma nota administrativa. Body & Soul Festival está hoje discontinuado, embora sua equipe criativa continue desenvolvendo outros projetos. Seu legado permanece em uma ideia que atualmente parece comum, mas foi inovadora na Irlanda: um festival podia cuidar da paisagem, da imaginação, do corpo e da experiência coletiva com a mesma seriedade dedicada à música.
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