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1.6 M
13 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
Bonnaroo Music & Arts Festival é um dos festivais norte-americanos que melhor entende a ideia de desaparecer por alguns dias do mundo real para entrar em uma comunidade temporária. Em Manchester, Tennessee, numa enorme fazenda que os participantes chamam simplesmente de The Farm, Bonnaroo não é vivido como uma sequência de shows isolados, mas como uma pequena cidade improvisada onde música, camping, calor, amizade, madrugada e descoberta se misturam até se tornarem inseparáveis. Seu nome vem do universo musical de Dr. John e de Nova Orleans, e essa origem já diz algo importante: Bonnaroo sempre teve algo de festa do Sul, de jam, de celebração solta e de “bom momento” levado a uma escala gigante.
A primeira edição, em 2002, nasceu com força inesperada. Reuniu dezenas de milhares de pessoas e estava muito conectada à cena jam band, ao rock de estrada, à improvisação e a uma cultura de fãs dispostos a viajar, acampar e seguir a música durante vários dias. Mas Bonnaroo não ficou preso a essa raiz. Com o tempo, tornou-se um dos grandes festivais multigênero dos Estados Unidos, capaz de receber rock, folk, hip-hop, eletrônica, soul, funk, jazz, Americana, bluegrass, pop, indie, country alternativo, reggae e sons experimentais sem que a mistura pareça forçada.
A experiência começa muito antes do primeiro grande set. Bonnaroo significa preparar o acampamento, chegar a Manchester, entrar no terreno, encontrar seu espaço, montar sombra, conferir o gelo, sobreviver ao sol do Tennessee e aceitar que, durante quatro dias, a vida vai funcionar com outras regras. O festival tem uma relação muito especial com o camping porque ali se constrói grande parte da memória. Nem tudo acontece diante do palco. Também acontece entre barracas, vizinhos que você acabou de conhecer, cafés da manhã improvisados, banhos procurados como tesouro, longas caminhadas e conversas estranhas às três da manhã.
Centeroo é o coração do festival, mas Bonnaroo se entende melhor caminhando. Os nomes de seus palcos —What Stage, Which Stage, This Tent, That Tent, The Other Stage— já têm algo de piada interna, quase como se o festival soubesse que você vai se perder, se confundir e rir dos próprios caminhos. Em um dia, você pode passar de uma banda de rock a um DJ, de um rapper a um set folk, de um ato de soul a uma sessão eletrônica de madrugada. Essa amplitude faz de Bonnaroo um festival ideal para quem não quer que o próprio gosto musical viva dentro de uma única caixa.
Uma de suas tradições mais queridas é o espírito de colaboração. Bonnaroo é famoso por seus SuperJam, por encontros improváveis entre artistas, por sets especiais e por momentos que parecem pensados para quem estava realmente ali, não para se repetir de forma perfeita na internet. Essa é parte da sua magia: Bonnaroo recompensa quem fica acordado, quem continua caminhando, quem entra para ver algo sem saber exatamente o que é. Muitas vezes, a melhor lembrança não é o headliner que todos esperavam, mas o show que você descobriu porque estava passando e algo te puxou.
O público, os Bonnaroovians, também define a personalidade do festival. Existe uma cultura forte de positividade, ajuda mútua e pertencimento. Isso não significa que tudo seja perfeito: há calor pesado, cansaço, poeira, lama quando chove, filas, banheiros complicados, horários que se chocam e aquele desgaste físico que só entende quem passou vários dias em um festival de camping. Mas justamente por isso a comunidade importa. As pessoas aprendem a compartilhar, cuidar dos vizinhos, se orientar, se hidratar, procurar sombra e celebrar pequenas vitórias como reencontrar os amigos entre milhares de pessoas.
Sua história recente também mostrou a fragilidade dos grandes festivais ao ar livre. Bonnaroo foi cancelado em 2020 por causa da pandemia, em 2021 por inundações e em 2025 por clima severo depois de já ter começado. Essas interrupções pesaram porque Bonnaroo não é apenas um evento com ingressos e palcos; para muitos participantes, é uma tradição anual, um encontro emocional com The Farm. O retorno de 2026, com nomes como The Strokes, Skrillex, Rüfüs Du Sol e Noah Kahan, recolocou o festival em seu papel natural: uma reunião grande, diversa e profundamente comunitária onde a música serve como desculpa para viver alguns dias de outro jeito.
Bonnaroo é um festival de resistência, curiosidade e convivência. Seu encanto não está no conforto perfeito, mas na aventura: caminhar sob o sol, dançar até tarde, descobrir artistas, cansar com amigos, perder um set porque ficou conversando com desconhecidos e sentir que, por alguns dias, uma fazenda no Tennessee se transforma em um mundo próprio.
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