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Números, sede e manias da casa
Alguns festivais constroem uma cidade temporária e pedem ao público que viva dentro dela por vários dias. BST Hyde Park faz quase o contrário. Instala uma enorme estrutura de shows dentro de um dos parques mais conhecidos de Londres e mantém a própria cidade sempre a poucos minutos de distância. Não existe camping nem viagem para uma região rural. O público chega de metrô, atravessa Hyde Park, passa pelos portões e de repente encontra o Great Oak Stage diante de dezenas de milhares de pessoas. Depois do último bis, essa multidão volta a se espalhar por Londres. No dia ou fim de semana seguinte, o mesmo gramado pode receber uma comunidade musical completamente diferente.
A história começou em 2013 como British Summer Time Hyde Park. Desde a primeira edição, nomes como The Rolling Stones e Bon Jovi deixaram claro que a intenção era trabalhar na maior escala possível. Hyde Park já carregava décadas de história musical, dos grandes concertos gratuitos do rock britânico a apresentações monumentais realizadas de forma pontual, mas BST transformou essa relação em uma estrutura anual. O parque deixou de depender de um único grande show ocasional e passou a receber uma sequência planejada de datas durante o verão. Cada headliner podia construir sua própria jornada dentro do mesmo espaço, enquanto a produção permanecia montada ao longo de vários fins de semana.
Essa estrutura explica por que BST é festival e série de concertos ao mesmo tempo. Não existe necessariamente um único público acompanhando a programação inteira. Cada data possui um artista principal, convidados e palcos secundários organizados ao redor daquela jornada. Uma noite de Black Sabbath não precisava ter qualquer semelhança cultural com uma de Taylor Swift; Blur, The Who, Céline Dion, Stevie Wonder, Adele, BLACKPINK ou Lana Del Rey podiam utilizar o mesmo parque sem que a curadoria fingisse uma unidade de gênero. O que conecta as datas é outra coisa: a dimensão dos artistas, o Great Oak Stage e a transformação temporária de Hyde Park em um enorme recinto musical no coração de Londres.
O parque também determina boa parte da experiência. O Great Oak Stage concentra a atenção quando chega a hora do headliner, mas o público entra muito antes e encontra outros palcos, bares, comida e áreas de hospitalidade. Os shows são inteiramente em pé e o terreno é mais simples de percorrer do que um enorme festival de camping, embora dezenas de milhares de pessoas façam a posição diante do palco se tornar uma decisão importante. O contraste aparece especialmente quando a música termina. Ninguém volta para uma barraca. As saídas conduzem a estações de metrô, ônibus, hotéis, restaurantes e pubs. Londres oferece ao festival uma infraestrutura que, em um evento isolado no campo, precisaria ser temporariamente construída.
Nos intervalos entre os grandes fins de semana, Open House muda o significado dessa mesma estrutura. Parte do espaço é aberta gratuitamente para atividades como transmissões de Wimbledon, cinema ao ar livre, esportes, programas familiares, DJs e iniciativas comunitárias. A mudança de escala social é interessante. Um palco capaz de receber uma estrela global diante de milhares de pessoas pode servir, poucos dias depois, como pano de fundo para famílias assistindo tênis ou participando de uma atividade física. Essa segunda vida reduz a sensação de que uma área pública do parque permanece fechada apenas para eventos comerciais e aproxima BST de pessoas que talvez nunca tenham comprado ingresso para um dos concertos principais.
A pandemia produziu a maior interrupção de sua história. BST Hyde Park foi cancelado em 2020 e também não aconteceu em 2021, retornando em 2022. A partir daí, ficou evidente que o festival conseguia continuar renovando sua audiência. Bruce Springsteen e Guns N’ Roses podiam representar décadas de rock, enquanto P!nk, BLACKPINK, SZA, Stray Kids, Sabrina Carpenter e Olivia Rodrigo atraíam outros públicos e gerações. Esse equilíbrio evita que o evento fique preso à memória de seus primeiros anos. A grandeza histórica de um artista continua sendo importante, mas a relevância contemporânea também pode ocupar o mesmo palco. Hyde Park funciona como uma plataforma suficientemente ampla para receber os dois extremos.
Em 2026 essa característica ficou especialmente clara. Garth Brooks abriu a edição diante de cerca de 65.000 pessoas em seu primeiro show no Reino Unido em trinta anos, transformando o parque durante um dia em uma enorme celebração country. No domingo seguinte, ATEEZ realizou ali seu primeiro headline de festival britânico. Maroon 5 trouxe pop-rock global, Mumford & Sons retornou a uma cidade profundamente conectada à história da banda e Duran Duran conduziu uma jornada marcada por pop e disco. Pitbull mudou novamente a atmosfera, enquanto Lewis Capaldi encerrou a série com duas noites consecutivas, os maiores shows britânicos de sua carreira até então. O mesmo espaço mudou completamente de público várias vezes em pouco mais de duas semanas.
Essa é a contradição que melhor explica BST Hyde Park. Trata-se de um dos maiores festivais recorrentes de Londres, mas para grande parte da audiência ele é simplesmente “o show” do artista que motivou a compra do ingresso. Não existe obrigação de participar de um fim de semana completo nem de pertencer a uma única tribo musical. Mesmo assim, a repetição dessas jornadas independentes criou uma memória coletiva. The Rolling Stones, Taylor Swift, Adele, Springsteen, BLACKPINK e Garth Brooks agora pertencem a capítulos diferentes do mesmo Great Oak Stage. Patrocinadores mudaram e British Summer Time se transformou naturalmente em BST, mas a ideia continua igual: manter Hyde Park reconhecível enquanto, várias vezes a cada verão, muda completamente a música e a multidão que o ocupa.
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