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Números, sede e manias da casa
Há uma pergunta que quase todos os participantes do Dekmantel Festival acabam fazendo a si mesmos em algum momento do fim de semana — geralmente parados em algum lugar do Amsterdamse Bos, com uma linha de graves reverberando no peito e o cheiro de árvores no ar: como algo assim pode existir?
Não é uma pergunta sobre orçamento ou logística. É a pergunta que surge quando o lugar, a música e o público parecem realmente alinhados — quando o que se vive não é uma simulação de cultura underground, mas a coisa em si, dosada com cuidado e protegida deliberadamente ao longo de mais de uma década.
A história começa antes do festival. Thomas Martojo e Casper Tielrooij cresceram em Haia e passavam os fins de semana da adolescência tomando o trem para as festas de techno em Amsterdã e Roterdã. Em 2007 se instalaram em Amsterdã e começaram a organizar as suas próprias noites com uma filosofia precisa: trazer o som de Detroit que sentiam estar faltando na cidade. Robert Hood e Moodymann estavam entre as suas primeiras contratações — artistas que eram heróis pessoais muito antes de se tornarem moeda corrente em cartazes. Em 2009 nasceu a gravadora. E em 2013, após seis anos construindo uma comunidade de dentro dos clubes, fizeram o salto para a floresta.
A primeira edição do Dekmantel Festival aconteceu em agosto de 2013 no Amsterdamse Bos, um parque florestal construído entre 1934 e 1967 como projeto de obras públicas, maior que o Central Park. A programação daquele primeiro ano disse imediatamente o que este festival pretendia ser: Âme, Ben Klock, Ben UFO, Carl Craig, Dixon, DJ Koze, Four Tet, Jeff Mills, Juan Atkins com Moritz von Oswald, Laurent Garnier, Joy Orbison, Marcel Dettmann. Não era a programação de um festival em busca da sua identidade. Era a de quem já a conhecia perfeitamente.
O que distingue o Dekmantel de quase todos os festivais de música eletrônica de reputação comparável é a ausência deliberada de uma hierarquia espetacular. Não há um headliner único que funcione como centro de gravidade do fim de semana, nenhuma tela gigante competindo com a música, nenhuma estrutura que esconda as árvores. Os palcos — entre eles o UFO, uma cúpula que se tornou genuinamente icônica na cultura eletrônica — são construídos para que o som e a floresta sejam os protagonistas. As pessoas derivam entre os sets, se perdem, descobrem um artista desconhecido num palco menor, chegam atrasadas a algum lugar porque o set anterior ainda não tinha terminado o que tinha a dizer.
A curadoria é a espinha dorsal de tudo o que Dekmantel faz. Fechar o palco principal do Bos no domingo tornou-se, no circuito, uma marca genuína de standing artístico. O festival programa regularmente artistas emergentes ao lado de veteranos de Detroit, trabalho experimental ao lado de techno de pista, sets longos ao lado de propostas curtas que recolocam tudo em perspetiva. Ser convidado a tocar no Dekmantel diz algo concreto sobre o lugar que se ocupa musicalmente.
Com o tempo, o festival se expandiu além do fim de semana na floresta: igrejas históricas, antigas fábricas de munição, espaços à beira do IJ — cada um escolhido pelo que acrescenta acusticamente ou atmosfericamente, não pela capacidade. Amsterdã em si torna-se parte da experiência.
O público que faz a jornada até o Dekmantel não é casual. São pessoas que planejaram com meses de antecedência, que conhecem as diferenças entre os palcos, que têm uma lista mental de sets que não podem perder de jeito nenhum — e que sabem, ao mesmo tempo, que os melhores momentos serão os que não planejaram. Depois de todos esses anos, os ingressos continuam se esgotando antes mesmo que a programação completa seja anunciada. A confiança está depositada no critério, não nos nomes — o que é, no fim, a única medida honesta do que um festival realmente é.
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