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3 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
O nome não pede um lago. Pede um homem. A 10 de junho de 2023 o Lazarus Music Festival plantou-se no Gateway Mall, Lilongwe, o Dia Internacional de Conscientização sobre o Albinismo: um dia, entrada livre, e um ouvido de afro e pop que as crónicas malauianas ligam a Lazarus Chigwandali, músico de rua, canjo, ativista. Quem chega à procura de Lake of Stars erra a margem. Lake of Stars é outro festival — Chintheche, 2004, Will Jameson — que aqui aparece como sócio, não como dono do nome. O chão é um centro comercial da capital. O ouvido é o de Chigwandali.
A Biwi Collective organizou a inaugural com a Standing Voice e com o Lake of Stars. Essa frase conta. O coletivo empresta a produção; o festival de margem empresta ofício, não identidade. A Yoneco FM e o The Times Group Malawi lembram encontros antes, em Zomba, Machinga e Dedza: o mesmo nome, o mesmo ouvido, um documentário da vida de Lazarus que Madonna produziu em 2019. O 10 de junho não nasceu do vazio. Nasceu de um músico que usa o canjo para falar de estigma, e de um consórcio que quis que Lilongwe o ouvisse no dia em que o calendário internacional o marcava.
O cartaz daquele sábado não era uma lista para encher um post. Era afro e pop do Malawi, e nomes de mais longe. Chigwandali à cabeça; Tay Grin, Suffix, Madalitso Band; Spiwe Zulu, da equipa, cita também The Very Best no LinkedIn. Os nomes explicam por que o Gateway Mall não pediu um recinto de praia para justificar o dia. Quem vem pelo filme fica ao lado de um set de hip-hop malauiano. Essa convivência é a tese: inclusão é força, o lema daquela jornada, feito música e não comunicado.
A experiência segue o formato. Chega-se ao mall, entra-se sem bilhete, ouve-se num espaço comercial que o resto da semana vende outra coisa. Não há campismo de margem. Não há Inn de Chintheche. Há um dia em Lilongwe, calor de junho, pó de capital, e a sensação de estar num centro, não no lago. De tarde o afro pede conversa entre corredores. De noite o pop pede menos distância. Quem procura palmeiras e um lodge erra o bilhete. Aqui o horizonte é um parque de estacionamento e um letreiro.
Não se devem misturar as duas marcas. O Lake of Stars move-se ao longo do lago Malawi, de Chintheche a Nkopola, de setecentos ouvintes a milhares. O Lazarus Music Festival conta-se por um mall e por um nome próprio. Colaborar não é fundir-se. Quem trata o 10 de junho como mais uma edição do Lake of Stars salta a Biwi Collective e salta Chigwandali. O chão é Lilongwe. O ouvido é o de um festival que pediu emprestado um sócio de margem para um dia de cidade.
Os números de aforo não estão fixados com nitidez nas crónicas. Não se inventam. O que está fixo é a gratuidade e o propósito: direitos de pessoas com albinismo, um tema que no Malawi não é metáfora. Chigwandali disse à Yoneco que a música lhe serve para combater o estigma. O festival conta-se com essa frase, não com uma contagem de pulseiras. Quem trabalha o recinto não é só pessoal voado de um lodge. É gente da Biwi Collective que trata o mall como o seu palco.
Relatá-lo como história não pede uma segunda edição inventada. Pede o 10 de junho de 2023, os ensaios em Zomba e Dedza, o documentário de 2019, e um fecho que não se disfarça de continuidade de outro festival. Quem procura uma franquia de praia com outro nome erra a ficha. O Lazarus Music Festival merece a mesma dignidade narrativa que o encontro de margem: um dia, um mall, um canjo.
Quem fica no parque quando Chigwandali acaba percebe por que o nome era um nome. Entre a Biwi Collective e o Gateway Mall, entre o Lake of Stars como sócio e o Lake of Stars como outro festival, entre Tay Grin e um documentário de Madonna, Lilongwe teve um festival de afro e pop que aprendeu a ser de cidade sem pedir o lago emprestado a ninguém. A Biwi Collective empresta a teimosia; Lazarus Chigwandali empresta o ouvido. Fica um Lazarus Music Festival que se conta por um homem, não pela margem de outro cartaz.
O canjo, quando soa contra o betão do mall, diz o contrato melhor do que qualquer dossier: não há palmeira, há um centro comercial, há um dia internacional, e há um ouvido que aceitou que o afro e o pop cabiam em Lilongwe sem se mudar para a água.
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