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1 edições para explorar · futuro, live e passado
2023Machaca 2023
Números, sede e manias da casa
Machaca é um daqueles festivais que se entendem melhor quando se entende Monterrey. Não nasceu como um evento elegante, calculado de um escritório para soar internacional desde o primeiro dia, mas como uma festa regiomontana com nome do norte, atitude local e uma mistura musical que sempre teve algo de bagunça bem organizada. Sua identidade vem daí: de uma cidade industrial, intensa, orgulhosa, acostumada ao calor, ao rock, à carne asada, à música ao vivo e a essa maneira muito norte-mexicana de transformar qualquer grande encontro em algo que parece próprio.
O festival começou em 2011 na Monumental Plaza de Toros Monterrey, com um cartaz que já dizia muito do seu DNA: Pato Machete, Cabrito Vudú, Celso Piña, Genitallica, El Gran Silencio e El Tri. Não era uma lista aleatória. Era uma declaração de raízes: rock mexicano, ska, cumbia, rap regio, bairro, festa, nostalgia e cultura popular. Desde o início, Machaca não quis se prender a uma única etiqueta. Podia ser rockeiro sem desprezar a dança, alternativo sem perder o popular, massivo sem esquecer seu sotaque local.
Durante os anos seguintes, o festival cresceu até se tornar uma data importante dentro do calendário musical de Monterrey. Parque Fundidora foi uma sede chave nessa etapa de expansão: um espaço amplo, urbano, reconhecível, onde a cidade já estava acostumada a viver grandes concertos. Ali Machaca tomou forma de festival grande, com palcos, multidões, longos percursos, horários apertados e essa mistura de públicos que só acontece quando um cartaz coloca para conviver bandas de rock, artistas pop, nomes urbanos, projetos latinos, lendas nacionais e atrações internacionais. Por muito tempo, essa foi sua personalidade mais visível: um festival amplo, mestiço, sem medo de juntar mundos que em outros cartazes talvez não se tocassem.
A experiência real de ir tinha muito de jornada regiomontana completa. Chegar com calor, procurar sombra, encontrar amigos, cruzar o recinto várias vezes, decidir se você segue a nostalgia, a festa ou o artista do momento, comprar algo gelado, aguentar o cansaço e acabar cantando músicas que talvez nem lembrasse que sabia. Esse é um de seus encantos: Machaca nem sempre funcionou como festival de descoberta refinada, mas como uma grande reunião onde importava tanto o cartaz quanto a memória emocional dos participantes. Havia bandas conectadas à adolescência, atos que acendiam a dança, artistas que reuniam gerações diferentes e momentos que ficavam maiores porque o público regio responde com volume.
Nos últimos anos, Machaca viveu uma fase de mudança. O cancelamento de última hora do Korn em 2023 deixou uma marca incômoda, e depois o festival voltou em 2024 com o nome Machaca Rock Fest, com uma aposta mais reduzida e nostálgica: Limp Bizkit, Marilyn Manson, Simple Plan e Hoobastank. Essa edição pareceu olhar diretamente para uma geração que cresceu com MTV, nu metal, pop punk, CDs gravados, MySpace tardio e canções que agora funcionam como cápsulas de memória. Em 2026, a Icons Edition levou essa virada ainda mais longe, com Alanis Morissette, Garbage, The Cardigans, Natalie Imbruglia e Lindsey Stirling na Expo Guadalupe, em formato de palco único e sets mais longos.
Essa mudança diz muito sobre a capacidade de adaptação do festival. Machaca já não é exatamente o mesmo grande festival multigênero de outras fases, mas também não perdeu totalmente sua essência: continua apostando em músicas que conectam gerações inteiras, em um público que vai cantar mais do que posar, e em uma ideia de festival onde a nostalgia não é museu, mas desculpa para voltar a gritar letras com amigos.
O que diferencia Machaca é seu sabor local. Não importa quanto o formato mude, o nome carrega Monterrey consigo. Machaca é norte, mistura, calor, rock, memória, festa e uma certa irreverência que não precisa se explicar demais. É um festival que soube se reinventar porque nunca foi completamente puro: sempre foi mistura, e nessa mistura está sua graça.
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