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2027Couleur Café 2027
Números, sede e manias da casa
Poucos festivais conseguem mostrar o Atomium acima das árvores e fazer com que um dos monumentos mais reconhecidos da Europa pareça apenas mais um elemento da paisagem. No Couleur Café, a estrutura surge sobre Osseghem Park enquanto reggae, hip hop, percussão africana, soul e música eletrónica percorrem os caminhos. Das áreas gastronómicas chegam aromas associados a vários continentes. Durante três dias, o evento não representa uma única comunidade musical: constrói uma versão intensificada de Bruxelas, multilingue, culturalmente diversa e habituada à convivência entre pessoas com histórias muito diferentes.
Couleur Café nasceu em 1990 nas Halles de Schaerbeek, reunindo pouco mais de cinco mil visitantes em torno de uma proposta inicialmente ligada à música do mundo. Em 1994 transferiu-se para Tour & Taxis, onde armazéns de tijolo, ferro e vidro criaram durante mais de duas décadas um dos cenários culturais mais marcantes da cidade. O público cresceu e a programação tornou-se cada vez mais difícil de resumir numa única categoria. Desde 2017, o festival ocupa Osseghem Park, no planalto de Heysel, aproveitando as árvores e os espaços abertos para construir um bairro temporário ao lado do Atomium.
A evolução dos cartazes acompanha mudanças profundas nos hábitos musicais europeus. Reggae, funk, soul, salsa, raï e afrobeat formaram a identidade inicial, enquanto hip hop, R&B, dancehall, dub e eletrónica passaram a ocupar posições igualmente importantes. Erykah Badu, Snoop Dogg, Public Enemy, Sean Paul, Ms. Lauryn Hill, Salif Keita, Cesária Évora, Wizkid, Tems e Burning Spear ajudam a mostrar a dimensão desse percurso. Os nomes internacionais dividem espaço com artistas belgas e novos projetos que podem transformar uma passagem casual por um palco menor na descoberta mais importante do fim de semana.
Essa diversidade funciona porque o público é incentivado a circular. Um artista de alcance mundial pode dominar o palco principal enquanto um sound system explora a cultura dub, um DJ aproxima ritmos africanos e caribenhos e uma banda conduz o jazz até à eletrónica. Não existe uma rota obrigatória. Cada visitante monta o seu próprio festival a partir dos concertos, pistas de dança, mercados, oficinas e zonas de encontro sob as árvores. A celebração popular e a curiosidade musical não aparecem como experiências incompatíveis, mas como partes do mesmo percurso.
A comida desenha uma segunda geografia dentro do parque. Cozinhas africanas, asiáticas, latino-americanas, caribenhas, mediterrânicas e europeias acompanham os encontros entre atuações. Designers independentes, artesãos, associações e projetos solidários ocupam os espaços intermédios, enquanto muitos materiais decorativos são reutilizados. Couleur Café promove ainda o transporte público e a bicicleta, procura reduzir resíduos, reaproveita infraestruturas e publica informações sobre a sua pegada de carbono. A sustentabilidade aparece integrada na operação diária, em vez de permanecer como uma mensagem abstrata.
A edição de 2026 decorreu entre 26 e 28 de junho e voltou a receber cerca de 75.000 pessoas. Ezra Collective, Pongo, Ruger, Obongjayar, Thee Sacred Souls, Danny Ocean, Amaarae, Protoje, Tokischa e Greentea Peng integraram uma programação que ligava jazz britânico contemporâneo, música africana lusófona, reggae jamaicano, pop latino e novas cenas urbanas da África Ocidental. Condições meteorológicas difíceis exigiram medidas adicionais e uma evacuação temporária, mas o recinto voltou a abrir e o último dia pôde ser concluído.
Couleur Café permanece ativo e regressará de 25 a 27 de junho de 2027. Mais de três décadas depois da estreia, o seu maior mérito está em ter evoluído sem abandonar a abertura original. A designação de festival de música do mundo já não consegue explicar tudo o que acontece ali. Couleur Café é um lugar onde Bruxelas escuta a sua própria complexidade e reconhece ligações com cidades muito além da Bélgica. Uma estrela pode atrair a maior multidão, mas a memória mais duradoura frequentemente nasce de um prato desconhecido, de uma dança aprendida no momento ou de um artista descoberto ao seguir um ritmo entre as árvores.
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