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2023DCode Festival 2023
Números, sede e manias da casa
Durante um dia de setembro, DCODE oferecia em Madrid algo surpreendentemente raro nos grandes festivais urbanos: grama natural debaixo dos pés. O Complexo Esportivo Cantarranas, dentro da Universidad Complutense e a poucos minutos de Moncloa, não era um terreno periférico transformado temporariamente em área de eventos, mas um campo universitário inserido na rotina da cidade. A data reforçava essa identidade. As férias estavam terminando, os estudantes voltavam e Madrid começava a recuperar seu ritmo habitual. DCODE funcionava então como uma última extensão do verão, um encontro de guitarras, pop e eletrônica que não exigia fugir da capital; ao contrário, marcava justamente o momento de voltar a ela.
A primeira edição, em 24 e 25 de junho de 2011, tinha uma ambição mais ampla do que o formato posterior poderia sugerir. Live Nation, Universidad Complutense e seus parceiros apresentaram DCODE como um encontro de música, arte e tendências. My Chemical Romance, Kasabian, The Hives, Band of Horses, Eels, The Ting Tings, Crystal Castles, Foster the People e The Vaccines apareciam ao lado de Lori Meyers, Manel, The New Raemon, Toundra e outros nomes espanhóis. A produção utilizava dois grandes palcos coordenados para evitar que os principais shows acontecessem ao mesmo tempo. Isso permitia ao público acompanhar grande parte do cartaz como uma sequência contínua, sem transformar a experiência numa corrida permanente entre apresentações concorrentes.
A arte também tinha presença concreta nessa primeira fase. O espaço C arte C da universidade recebeu Artbarter, exposição baseada na troca de obras e com participação de artistas como Miquel Barceló, Ouka Leele, Mariscal e Ángela de la Cruz. DCODE portanto nasceu tentando usar o campus como ambiente cultural, não apenas como aluguel de terreno. Com o passar dos anos, os shows tomaram claramente o centro, mas a ligação institucional continuou através de outras iniciativas. DCODE LAB aproximou alunos, professores e profissionais da indústria musical; ECODE introduziu metas de sustentabilidade; DCODE KIDS criou uma área voltada às famílias. A universidade permaneceu parte da personalidade do festival mesmo quando a programação artística paralela perdeu espaço.
Depois das duas primeiras edições, a estrutura mudou. Em 2012, The Killers, Sigur Rós, Justice, The Kooks, Kings of Convenience, dEUS e Django Django ainda ocupavam dois dias. A partir de 2013, DCODE passou principalmente a concentrar tudo numa única grande jornada de setembro. A redução acabou tornando a proposta mais nítida. Não era preciso camping nem organizar uma viagem de vários dias: metrô até Ciudad Universitaria, uma caminhada curta e depois quinze ou dezesseis horas de música. Essa facilidade logística não eliminava o desgaste. Com muitos shows em sequência, procurar comida, sentar no gramado ou simplesmente descansar podia significar abrir mão de alguns minutos de um artista que se queria ver.
Musicalmente, DCODE encontrou seu território entre indie internacional, rock alternativo e um pop cada vez mais abrangente. Franz Ferdinand, Beck, Interpol, Imagine Dragons, Liam Gallagher, Sam Smith, Foals, Suede, Jorja Smith e The Cardigans passaram por Cantarranas, enquanto Amaral, Vetusta Morla, Izal, Supersubmarina, Love of Lesbian, Dorian e Carolina Durante representaram diferentes fases da música espanhola. A edição de 2019 mostrou bem essa convivência. Two Door Cinema Club e Kaiser Chiefs dividiam espaço com Amaral; The Cardigans tocavam Gran Turismo completo; Carolina Durante trazia uma geração madrilenha muito mais jovem. O festival conseguia trabalhar com memória sem transformar o próprio cartaz numa celebração exclusiva do passado.
O recinto ajudava públicos distintos a compartilhar o mesmo dia. Crianças menores de dez anos podiam entrar gratuitamente, e DCODE KIDS oferecia atividades e apresentações específicas para elas. Isso permitia que pais continuassem frequentando festivais sem fingir que uma criança pequena deveria suportar uma tarde inteira diante do palco principal. Mais tarde, o clima naturalmente se tornava mais adulto quando chegavam os grandes nomes da noite. Grama, áreas de alimentação e transporte público faziam Cantarranas parecer confortável, mas a universidade nunca desaparecia completamente atrás da produção. Dançar num campo esportivo cercado por faculdades era uma imagem difícil de reproduzir em qualquer outro recinto de Madrid.
A sequência anual se rompeu justamente quando DCODE preparava seu décimo aniversário. Em 2020, o plano era recuperar dois dias com Vetusta Morla, Leiva, Crystal Fighters, Sidonie, Coque Malla e Fuel Fandango, mas a pandemia obrigou o adiamento. A tentativa de 2021, já com Queens of the Stone Age e The Hives anunciados, também não pôde acontecer. O retorno real ocorreu em 17 de setembro de 2022, com dezesseis horas de música. Crystal Fighters, The Kooks, Years & Years, The Hives, Viva Suecia, Maxïmo Park, Delaporte e uma reunião exclusiva do Deluxe devolveram vida ao gramado. Depois de três anos sem uma edição realizada, aquela jornada funcionou também como reencontro do público com o próprio lugar.
A interrupção seguinte veio por outro caminho. Lewis Capaldi seria o principal nome de 2023, mas cancelou sua turnê, e a organização considerou impossível encontrar em tão pouco tempo um substituto adequado; toda a edição foi suspensa. A promessa de voltar em 2024 também não se concretizou. Live Nation explicou depois que a indefinição de capacidade de Cantarranas e os custos de infraestrutura tornavam necessário reconsiderar o modelo, talvez recuperando pelo menos dois dias para torná-lo viável. Em setembro de 2026, DCODE continua listado entre os festivais da promotora, mas não possui nenhuma nova data oficial. O festival permanece pausado. Seu dilema é especialmente difícil porque não basta procurar outro terreno: o mesmo campus que hoje cria problemas operacionais foi justamente aquilo que transformou uma grande jornada de shows numa tradição reconhecivelmente madrilenha.
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