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2017
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3 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
Quatro da tarde na costa de Castellón e o recinto do FIB parece suspenso no calor: arquibancadas vazias, tendas fechadas, asfalto a brilhar. Quem chega de Londres, de Dublin ou de Madrid percebe depressa que o festival só revela a sua forma completa quando o sol baixa e a música ocupa a noite. Esse calendário invertido — praia de dia, palco de noite — não nasceu como slogan; foi resposta prática ao clima mediterrânico e, com o tempo, uma das marcas mais claras do evento. Mar, campismo e madrugada entram no pacote tanto quanto o nome impresso na pulseira.
O Festival Internacional de Benicàssim surgiu em 1995 com essa lógica já presente. Os fundadores olharam menos para feiras de verão do sul da Europa e mais para a cultura britânica de festival: a escala de Reading, o público viajante, a ideia de que o fim de semana inteiro conta tanto quanto a programação no cartaz. Antes de se fixar na província de Valência, o projecto tomou forma em Madrid, na Sala Maravillas, onde Miguel e José Luis Morán trabalharam com Luis Calvo e Juanjo Ezpeleta, testando formatos e aprendendo como se comporta um evento ao vivo quando a ambição ultrapassa o hábito local. Essa aprendizagem na capital explica por que o FIB chegou à Costa del Azahar com instinto internacional desde a primeira edição.
O quarteto inicial pertence a um momento concreto da música independente espanhola. Calvo, ligado à editora Elefant, e Ezpeleta, da Spiral, trouxeram rede e ouvido curador; os irmãos Morán trouxeram visão de produto e resistência para atravessar temporadas difíceis. Em 1997 Calvo e Ezpeleta abandonaram o projecto; os Morán permaneceram como rosto público do festival durante mais de uma década. Compreenderam cedo que o público britânico não era mercado acessório mas pilar: autocarros e voos do outro lado do Canal da Mancha, grupos que reservam campismo e apartamentos em conjunto, vocabulário partilhado de indie e rock de guitarra que pesava nas escolhas de programação.
A primeira edição, de 4 a 6 de Agosto de 1995, realizou-se no velódromo de Benicàssim perante um público estimado entre sete e oito mil pessoas — número forte para uma estreia provincial. A pista ciclística, habitualmente silenciosa, tornou-se laboratório de uma aposta arriscada: montar um grande festival de perfil internacional numa estância balnear mais conhecida por férias em família do que por música alternativa. O sucesso relativo daqueles dias convenceu os organizadores de que o modelo tinha pernas, revelando também a necessidade de um espaço maior, capaz de acolher vários palcos, a logística do campismo e aquela vida diurna lenta que viria a definir a marca.
A mudança para o recinto da Costa del Azahar fixou a mitologia visual do FIB: palmeiras, contentores reconvertidos, piscina que se tornou quase tão reconhecível quanto o cartaz. A piscina não é apenas cenário fotogénico; resume o contrato diurno — refrescar, recuperar, comentar a noite anterior enquanto o sol ainda castiga o asfalto exposto. O venue não é parque urbano nem aeródromo; é paisagem de férias temporariamente ocupada pela cultura pop, com o mar bastante próximo para marcar o relógio de todos. Arquitectura provisória, tendas, bancadas móveis, zonas de sombra: uma cidade efémera na margem de uma estância que recupera calma assim que os camiões partem.
Os primeiros anos deixaram episódios que o público ainda conta. Em 1997 uma tempestade atingiu o recinto durante actuações, obrigou a cancelamentos e abrigos improvisados sob tudo o que resistisse. Ainda assim, aquela edição ajudou a clarificar o tipo de artistas procurados: The Charlatans e Supergrass representavam pop rock britânico com coros garantidos; Los Planetas o lado mais exploratório do indie espanhol. O objectivo não era acumular nomes por volume, mas equilibrar descoberta e certezas — linha mantida quando a lotação e a atenção mediática cresceram.
O Villacamp, campismo oficial perto do recinto, completou o triângulo praia — venue — descanso. Para milhares de festivalieres funcionou como bairro provisório: tendas alinhadas, inglês misturado com valenciano, compras partilhadas e autocarros para a areia. Para parte do público britânico Villacamp valeu tanto quanto o cabeça de cartaz — vários dias de convivência leve que distinguiram o FIB de eventos urbanos de uma só noite. Essa permanência explica por que tantos regressaram mesmo quando a programação mudou radicalmente.
Musicalmente, o FIB construiu reputação no cruzamento entre indie, rock alternativo e electrónica com ADN de guitarra. Nunca foi monogénero: club e rock de estádio puderam partilhar a mesma noite, exigindo público curioso, disposto a mudar de ritmo. Para bandas espanholas emergentes tocar ali significou visibilidade internacional; para artistas estrangeiros, porta de entrada ibérica sem perder o canal de exportação para Grã-Bretanha e Irlanda. A programação não perseguiu moda de um único verão; tentou ler movimentos com uma ou duas temporadas de distância, misturando confirmações seguras com apostas que depois se tornaram referências.
A era dos irmãos Morán terminou após venderem a participação por volta de 2006 e abandonarem a direcção em 2009, num contexto de reordenação empresarial do sector de megafestivais na Europa. Vince Power e Maraworld entraram no capital; o projecto continuou sob outra estrutura, mas a impressão dos fundadores permanece no ADN: horários nocturnos, público viajante, mistura anglo-espanhola, aposta em Benicàssim como marca exportável. José Luis Morán, em entrevistas posteriores, descreveu aqueles anos como mistura de entusiasmo juvenil e responsabilidade logística constante, cada edição equilibrando ambição artística e sobrevivência económica.
Fora de Espanha fala-se muitas vezes do FIB primeiro como estilo de vida: dormir pouco, nadar de dia, ouvir de noite com humidade mediterrânica no ar, partilhar espaço com quem faz da viagem um ritual. Benicàssim não é Barcelona nem Madrid; durante alguns dias torna-se nó europeu de música independente e pop rock, graças a um festival que, numa sala madrileña, decidiu olhar para o norte para definir a sua personalidade no sul.
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