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ELECTRONIC ROCK - HOUSE - TECHNO
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2019
Artistas em destaque
Lineup a caminho — publicamos assim que for confirmado.
8 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
Descer pelo vale de Eastnor já era entrar na lógica do festival. Os palcos não ficavam simplesmente alinhados em um grande campo: alguns apareciam entre árvores, outros aproveitavam o lago ou as diferenças naturais do terreno, e um caminho podia terminar em performers, uma festa escondida, um restaurante ou uma área de wellness que não parecia fazer parte do plano original do dia. El Dorado Festival transformou a lenda de uma cidade perdida em maneira de organizar espaço. O público era incentivado a procurar, desviar e descobrir. Assistir apenas aos maiores artistas certamente funcionava, mas deixava de fora justamente aquilo que diferenciava o encontro de uma sequência tradicional de grandes festas eletrônicas.
A origem veio diretamente de Cirque Du Soul, a marca britânica de festas itinerantes construída em torno de DJs, cenografia e performances imersivas. A mesma equipe criou El Dorado em 2016, com Luke Wolfman entre os cofundadores ligados aos dois projetos. Eastnor Castle Deer Park, perto de Ledbury, oferecia um território particularmente adequado e já possuía história festivalera através do antigo The Big Chill. Na primeira edição, Craig David’s TS5, Basement Jaxx em DJ set, Kano, Loyle Carner, Shy FX e David Rodigan conviviam com dezenas de outros artistas. Eletrônica era o centro, mas garage, jungle, hip-hop, reggae e apresentações ao vivo já mostravam que o festival não pretendia pertencer inteiramente a uma única cena.
A paisagem permitiu desenvolver essa ideia em profundidade. Eastnor tem bosques, água, colinas e áreas naturalmente separadas, portanto cada palco podia ganhar personalidade sem depender apenas de decoração. Com os anos chegaram cenários imersivos, áreas secretas, centenas de performers e atores, cabaret, comedy, talks, restaurantes, salão de cabelo, espaços de cuidado pessoal, hot tubs e um programa cada vez maior de bem-estar. A experiência passava a existir também entre os shows. Consultar horários era necessário, mas seguir cada minuto rigidamente podia ser contraproducente. Parte da graça estava em entrar por curiosidade num lugar que não estava na agenda e descobrir por que tantas pessoas tinham desaparecido naquela direção.
Musicalmente, El Dorado se tornou um retrato bastante amplo da club culture britânica. House, disco, UK garage, jungle e drum & bass apareciam repetidamente, enquanto hip-hop, soul, reggae e live acts criavam mudanças de textura. Em 2022, Earth, Wind & Fire, Groove Armada e Shy FX dividiram protagonismo, combinação que resume bem o tipo de liberdade procurada. Outros anos receberam Goldie, Mall Grab, Job Jobse, HAAi, Denis Sulta, Mr Scruff e muitos artistas ainda em crescimento. Não havia obrigação de transformar todo o recinto na mesma festa. Pelo contrário: diferentes zonas podiam assumir públicos e ritmos próprios, desde que juntas mantivessem o festival em movimento durante quatro dias.
A capacidade cresceu de aproximadamente três mil pessoas no início para doze mil em uma edição esgotada em 2022. Mesmo assim, El Dorado continuou usando a ideia de festival boutique porque o público era distribuído por vários pequenos ambientes em vez de uma arena gigantesca. O camping permitia permanecer dentro daquela ficção de quinta a segunda, e nas principais noites a música podia seguir até perto das quatro da manhã. Temas de roupa também se tornaram tradição. Domingo significava ouro; outros dias recebiam conceitos próprios. Quando milhares de pessoas realmente aderiam, a participação coletiva alterava o aspecto do lugar. A produção montava a cidade, mas era o público que fazia parecer que alguém realmente morava nela.
Em 2023, cerca de dez mil pessoas retornaram para KC & The Sunshine Band, Folamour, Sampa The Great, Mall Grab, Goldie, Shy FX, Barry Can’t Swim, HAAi, Job Jobse, Vengaboys e muitos outros. O desenho do terreno recebeu mudanças e uma nova área de wellness teve procura intensa. Ao mesmo tempo, a natureza lembrou que continuava comandando Eastnor. Tempestades elétricas provocaram duas interrupções temporárias dos shows durante sábado e domingo. Os protocolos de emergência foram aplicados e as apresentações voltaram quando a distância dos raios permitiu. Para um festival que usava floresta, água e paisagem como matéria-prima estética, aquele fim de semana mostrou a outra face da relação: o cenário natural não existia apenas para produzir fotografias bonitas.
A edição seguinte nem chegou a começar. El Dorado anunciou 11 a 14 de julho de 2024 e um programa que incluía Honey Dijon, Sammy Virji, Sub Focus, Boney M, Eliza Rose, SBTRKT, Shy FX e Ross From Friends. Em 21 de maio, porém, a organização cancelou o festival. A justificativa citou o aumento dramático dos custos operacionais, os efeitos do custo de vida sobre o setor e sobre os consumidores e o risco de perdas financeiras potencialmente catastróficas. O grupo preferiu devolver os ingressos a realizar uma edição severamente reduzida. O problema atingia justamente o coração do projeto: cenografia, atores, infraestrutura, camping e longos horários faziam El Dorado custar muito mais do que simplesmente contratar DJs e levantar um palco.
Naquele comunicado, a intenção era encontrar uma maneira de voltar em 2025. Isso não aconteceu. Também não houve festival em 2026 e nenhuma próxima edição está oficialmente confirmada. Portanto, a última realização efetiva continua sendo julho de 2023 e seu futuro precisa ser tratado como incerto. Há uma ironia adequada nisso: um festival que construiu toda sua mitologia sobre uma cidade perdida voltou a ser um lugar que existe principalmente na memória de quem conseguiu encontrá-lo. Caso retorne, recuperar o nome será a parte simples. O desafio será recriar a combinação de música, floresta, teatro, noites longas e participação coletiva que fazia milhares de pessoas aceitarem, por alguns dias, que aquele vale de Herefordshire realmente escondia outro mundo.
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