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Números, sede e manias da casa
Nada no caminho até Zrce prepara verdadeiramente quem chega pela primeira vez para o que encontra no final. A ilha de Pag recebe os visitantes com colinas calcárias nuas, moldadas pelo vento, uma paisagem que os habitantes locais comparam há muito à superfície lunar, antes de a estrada descer até uma estreita praia de seixos ladeada por beach clubs. O Hideout instalou-se nessa praia em 2011 e nunca mais saiu, construindo um festival inteiro não à volta de palcos erguidos de propósito mas dos clubes já existentes na areia — uma decisão que definiu o aspecto, o som e a atmosfera do evento nos anos seguintes.
Dois promotores de Leeds, Mark Newton e Dan Blackledge, à frente da agência Sound Channel, lançaram o festival junto com o cofundador Steven Allison. Os três vinham da cena de clubes do norte de Inglaterra e queriam levar essa cultura para um clima mais quente sem suavizar as suas arestas. O nome surgiu de Sam Kandel, na altura ligado ao Warehouse Project de Manchester, que sugeriu «Hideout» para descrever Zrce: uma praia escondida, longe do turismo adriático convencional, pensada para quem procurava house e techno de clube em vez de vida nocturna de pacote turístico.
A primeira festa reuniu cerca de três mil e quinhentas pessoas, um número modesto face ao que se seguiu. No ano seguinte a assistência quase duplicou para cerca de cinco mil, e na quinta edição o festival já se aproximava das dezassete mil pessoas por dia, números que Dan Blackledge partilharia mais tarde ao falar sobre a rapidez desse crescimento. Essa expansão nunca veio acompanhada de mudança de local: o Hideout permaneceu no mesmo troço de Zrce, absorvendo mais gente ano após ano no mesmo espaço físico em vez de se expandir para outra zona da ilha.
Em vez de construir palcos de raiz, o Hideout adoptou os beach clubs já existentes ao longo de Zrce — entre eles Papaya, Aquarius, Kalypso e Noa — transformando cada um num palco com identidade sonora própria, unidos sob uma única pulseira de festival. Circular entre eles de dia significa atravessar esplanadas de piscina, bares e zonas de sombra improvisadas; à noite, a mesma faixa de praia transforma-se num circuito contínuo onde o público decide em que clube ficar consoante o que está a tocar naquele momento, sem fronteiras físicas muito marcadas entre uma festa e a seguinte.
House, garage, techno e drum & bass formam a espinha dorsal musical do festival, uma combinação que reflecte quase exactamente o que os clubbers do norte de Inglaterra ouviam no início da década de 2010. Leeds, Manchester e Liverpool forneceram durante anos a maior parte do público, viajantes que reconheciam em Zrce uma extensão de Verão das suas noites habituais em clubes britânicos. Essa identidade regional moldou o tom do festival muito mais do que qualquer estratégia de marketing: o Hideout cresceu de boca em boca entre estudantes e fãs de música electrónica que já se conheciam da vida nocturna britânica, muito antes de se tornar conhecido fora do Reino Unido.
O cartaz histórico mostra bem o equilíbrio entre techno mais dura e som de clube mais acessível que o Hideout sempre manteve. Sven Väth e Marco Carola representam o lado mais duro e minimalista da techno europeia; Loco Dice e Solomun encarnam o som melódico que domina boa parte da techno de festival mediterrânico; 2manyDJs, Annie Mac e Jamie xx trazem o cruzamento entre indie, electrónica e rádio que alcança um público mais vasto; Chase & Status, Disclosure e Rudimental representam a onda de bass e garage britânico que nesses anos definia as tabelas do Reino Unido. Sasha, com raízes na cena de clubes de Manchester, fecha o círculo entre a cultura que deu início ao festival e a que acabou por o programar.
Viver o Hideout significa aceitar que a praia é simultaneamente pista de dança, esplanada de bar e zona de descanso. Os dias começam tarde, com o sol a bater directamente nos seixos de Zrce enquanto o público se divide entre a água, as piscinas dos clubes e os primeiros sets mais suaves; a intensidade sobe ao longo da tarde até toda a faixa estar iluminada e o som de um clube se misturar com o do seguinte. O alojamento resolve-se sobretudo em Novalja, a povoação mais próxima, ou em parques de campismo e apartamentos noutras zonas da ilha, com autocarros lançadeira que ligam à praia durante toda a noite — uma logística pouco sofisticada mas ajustada a um festival pensado para não dormir muito.
Por volta de 2017, o crescimento do festival atraiu atenção para além dos promotores independentes: a Global, um dos maiores grupos de rádio e media do Reino Unido, adquiriu uma participação maioritária no projecto. A operação profissionalizou a produção e ampliou a capacidade de negociar com artistas internacionais, mas não alterou nem a localização nem o formato de beach clubs que definia o Hideout desde a primeira edição. Mark Newton e Dan Blackledge mantiveram depois um papel criativo, uma continuidade pouco habitual em festivais que passam por este tipo de mudança de propriedade.
O Hideout continua a ser, acima de tudo, um festival que percebeu que Zrce não precisava de palcos novos mas de uma forma diferente de olhar para os que já existiam. O seu percurso, de uma festa de três mil e quinhentas pessoas organizada por promotores de Leeds até um evento capaz de mover uma ilha inteira durante vários dias, resume uma cena muito concreta do norte de Inglaterra que decidiu exportar a sua cultura de clube para a costa croata sem perder pelo caminho a crueza de pista que lhe deu origem.
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