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2023Jazzkaar 2023
Números, sede e manias da casa
Em Tallinn o jazz não espera um campo de festival. Espera que uma editora de rádio decida que uma Estónia que se abria merecia dez dias de improvisação própria. Jazzkaar nasceu em 1990 pela mão de Anne Erm, vinda da Vikerraadio e do ecossistema da ERR. Não era uma franchise nórdica pousada no Báltico. Era uma jornalista musical que transformou um ouvido de estúdio em calendário público enquanto o país deixava a era soviética. Essa biografia — rádio primeiro, palco depois — explica por que o festival parece mais conversa do que feira: quem o arma já tinha aprendido a apresentar jazz sem pedir licença a Moscovo.
O nome Jazzkaar — arco de jazz — sugere uma ponte, não um recinto único. Durante cerca de dez dias Tallinn reparte concertos por salas, clubes e, com o tempo, pelo hub da Telliskivi Creative City, antigo tecido industrial reconvertido em oficinas, bares e naves. Quem atravessa aqueles carris e tijolos nus percebe o gesto: o jazz estónio não se esconde num teatro de ópera para turistas. Senta-se onde a cidade já fabrica cultura contemporânea. O maior festival de jazz do Báltico não precisa de um recinto insuflável. Precisa de uma capital disposta a ocupar os seus espaços durante uma dezena de jornadas.
Erm não partiu de um deserto. Antes de 1990, Uno Naissoo e Valter Ojakäär tinham sustentado, em condições soviéticas, uma tradição de escrita, pedagogia e difusão que fez do jazz mais do que vinil de contrabando. Naissoo como figura de composição e de escola; Ojakäär como voz que explicou o género na rádio e na página. Jazzkaar herda esse trabalho de persistência: não «descobre» o jazz na Estónia em 1990. Torna-o festival de escala nacional e internacional quando enfim se pode convidar sem o filtro de uma união cultural tutelar.
O único género que define o encontro é o jazz, entendido com a folga de um festival longo: standards, línguas contemporâneas, projectos locais e visitas que cabem numa programação de dez dias sem virar lista de troféus. Não é preciso inventar um cartaz de estrelas para explicar o carácter. O carácter está na duração e na curadoria de alguém que vem da rádio pública: ouve-se com paciência, apresenta-se com contexto, evita-se o golpe único de uma noite de estádio. Tallinn não oferece um bowl. Oferece uma cidade caminhável e um arco de datas.
A Telliskivi muda a experiência do corpo. Entre naves, pátios e salas, o público não se planta diante de um único palco gigante. Desloca-se, entra numa sala mais pequena, sai a tomar o ar frio do Báltico, volta a outra hora. O clima de primavera ou outono — conforme o arco caia no calendário de cada edição — pede casaco e trajectos curtos de tijolo a tijolo. Sem campismo de bosque. Eléctrico, a pé, o centro histórico de um lado e o bairro criativo do outro. De dia a Telliskivi parece distrito de design; de noite, quando os concertos enchem as naves, o mesmo pátio industrial soa a clube.
A relação com Tallinn é a de uma capital pequena que se deixa ocupar sem perder o centro. O festival não aterra como marca estrangeira: cresce a partir de uma redactora que já falava ao país pelas ondas. Essa continuidade importa num mapa báltico onde Riga e Vilnius têm as suas cenas: Jazzkaar tem sido citado como o maior festival de jazz da região precisamente porque manteve, ano após ano, uma duração e uma ambição que cabem em dez dias e numa cidade que se percorre. O título não é slogan. É consequência de insistir quando outros calendários encolhem.
Quem chega de ferry a partir de Helsínquia ou pelo aeroporto Lennart Meri percebe que a viagem é curta e o festival, longo. Pode-se ouvir uma noite e ir embora; pode-se ficar a dezena e tratar Tallinn como sala múltipla. As crónicas falam de um público que mistura vizinhos, estudantes e visitantes nórdicos ou alemães, sem transformar essa mistura em estatística. O que se vê é a pedagogia suave de Erm: o jazz apresenta-se, não se impõe. Um festival nascido da rádio sabe que o ouvido se educa com repetição, não com um só headliner.
O legado de Jazzkaar não é ter posto a Estónia num mapa de cartazes. É ter demonstrado que uma editora da Vikerraadio podia, em 1990, transformar uma tradição perseguida ou condicionada — Naissoo, Ojakäär, as noites soviéticas — num arco de dez dias que ainda se segura nas naves da Telliskivi. O jazz do Báltico tem outros nomes. Este é o que mediu a escala em Tallinn e a mediu em dias, não num único sábado.
Jazzkaar fica como o pacto entre uma jornalista e uma capital que aceita, durante cerca de dez jornadas, falar improvisação em tijolo industrial e em sala. Da ERR ao bairro criativo, da persistência soviética ao maior festival de jazz do Báltico, o encontro mostra que o jazz estónio não precisava de um campo anónimo. Precisava de Anne Erm e de uma cidade disposta a ouvir mais do que uma noite.
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