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Números, sede e manias da casa
Em Dhërmi o Adriático não chega como areia fina de postal. Chega como praia de seixos, pedra redonda debaixo do pé, uma faixa entre falésia e água na Riviera albanesa, a meio caminho de Sarandë e Vlorë. Ali, de 20 a 27 de junho de 2018, a Mainstage Festivals — a casa britânica do Snowboxx — estreou o Kala Festival como o primeiro festival internacional da Albânia. Alan Crofton dirige. O nome, em hindi, significa arte. Quem imagina os Balcãs só como circuito de capitais erra a costa: aqui a origem é uma semana num povoado de praia que até então não figurava no mapa das promoteras europeias de house.
Menos de duas mil pessoas nessa primeira semana. O número, citado com prudência, importa porque fixa a escala: não é um recinto de dezenas de milhares nem um campismo de marca. É uma enseada de seixos, um povoado de casas brancas e um público que, nessa abertura, era predominantemente britânico. O dado não é um recriminação. É a geografia real de um estreia: uma promotora do Reino Unido escolhe a Albânia, e o avião e o ferry trazem ouvidos que já conheciam o Snowboxx. Quem vive em Dhërmi vê de repente uma semana de sistemas e de madeira na orla. Quem chega de Londres vê um Adriático que não é Ibiza nem Míconos.
O primeiro-ministro Edi Rama visitou essa edição. As crónicas lembram-no porque um chefe de governo num festival de house não é o protocolo habitual de uma praia de seixos. A visita não transforma o Kala num ato de Estado. Assinala que a Albânia tratou a estreia como um assunto de imagem: o país queria entrar no calendário internacional da dance, e um encontro de uma semana na Riviera era uma forma concreta de o dizer. House e techno soavam junto à água; o soul cabia quando a tarde pedia outra temperatura. Disco, como etiqueta de catálogo, não entra aqui. Entra o ouvido de pista que a Mainstage já sabia programar.
Adrienn Peterffy, ligada à Secretsundaze, assinou palcos de madeira recuperada. Essa decisão é tese, não decoração. Numa praia de pedra não se crava um palco de feira cromado. Monta-se volume com tábuas que já tiveram outra vida, uma arquitetura que se lê em contraluz quando o sol desce sobre o Adriático. A Secretsundaze empresta um critério de Londres — house de clube, não hino de estádio — a um povoado que não tinha essa infraestrutura. O palco não esconde a paisagem: usa-a. Quem se aproxima da orla ouve o kick misturado com o roçar dos seixos.
A experiência do público é de semana, não de um sábado único. Dorme-se no povoado, em apartamentos ou no que Dhërmi oferece a quem chega em junho. Caminha-se sobre pedra. Entra-se na água se o calor o pede. O dia é sol branco e sombra procurada; a noite é pista junto ao mar, a falésia como parede natural. Não há um recinto vedado de vários dias à porta de uma capital. Há um povoado que, durante sete dias, se torna o mapa do festival. O percurso desde Sarandë ou Vlorë faz parte da chegada: estrada de costa, curvas, a sensação de ter deixado a cidade para descer a uma enseada.
Aqui não se afirma uma época posterior nem uma lotação crescente. Afirma-se o arco verificável da estreia: 2018, vinte a vinte e sete de junho, Dhërmi, Mainstage, Crofton, o hindi de «arte», menos de dois mil, público britânico, Rama de visita, madeira recuperada, house, techno e soul. As fontes especializadas assinalam-no como a primeira data internacional da Albânia neste formato. Essa primazia é o carácter. Quem procura um relato de ilha grega ou de clube de Berlim erra a margem. Quem procura uma semana de dança numa Riviera que o turismo de massas europeu ainda não tinha transformado em marca encontra os seixos.
A Albânia, em 2018, não era um destino óbvio para uma promotora de house britânica. Essa estranheza segura o texto. O Kala não nasceu de uma tradição local de festivais de techno. Nasceu de uma aposta: levar um ouvido de clube a um país que queria ser visto, e fazê-lo num povoado de praia, não num pavilhão de Tirana. O povoado empresta a pedra e as casas; a Mainstage empresta o booking e a semana. A tensão entre essas duas coisas — o local e o importado, o seixo e o kick — é o que o público percorre cada vez que desce à orla.
O Kala Festival percebe-se melhor como uma semana de seixos que um diretor britânico decidiu tratar como arte. Entre Dhërmi e o Snowboxx, entre o hindi do nome e a visita de Rama, entre Peterffy e o Adriático, a Albânia teve um primeiro festival internacional que não pediu um estádio. Pediu uma praia de pedra, uma lotação contida e a decisão de que o house soasse onde o mapa europeu da dance ainda não tinha posto um alfinete.
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