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Números, sede e manias da casa
O RAI de Amesterdão é uma máquina de feiras: corredores, betão, um tecto pensado para stands, não para um kick. A 30 de abril de 2013, na Koninginnedag que fechava o reinado de Beatrix, essas naves tornaram-se Kingsland Festival. A ALDA Events e a EA Events encheram o recinto com um número citado em torno de vinte e cinco mil. Armin van Buuren estava no cartaz: não como adorno de postal, mas como a prova de que um pavilhão de exposição de capital podia soar a house e a trance de estádio no dia em que o país se despedia da rainha. Quem procure este nome em Zwolle engana-se de cidade.
Kingsland não é Kingdance. Essa correcção não é uma nota de arquivo. Kingdance é Overijssel, IJsselhallen e depois um lago; Kingsland é Amsterdam RAI, produtoras de capital e um ouvido que cabe numa nave de feira. Misturá-los é o erro de quem só lê King e assume um só mapa. O leitor que entra pelo RAI merece o nome certo e a tese certa: aqui a festa nacional vive-se num recinto de exposição, com câmaras e um público que chegou de metro, não de comboio regional para leste.
A Veronica TV colabora. Isso muda o corpo do encontro. Um festival de Koninginnedag no RAI não é só um recinto: é um recinto que se pode ver a partir de um sofá. As crónicas recordam essa aliança como parte do formato, não como um logótipo ao rodapé. Quem está dentro ouve a house contra o betão; quem está fora pode ver a mesma nave cortada por uma realização de televisão. Essa dupla presença — nave e antena — explica uma escala que um clube de província não pede nem poderia sustentar no mesmo dia.
O ouvido é house, techno e hip hop. Armin marca uma etapa de house de grande recinto; o techno cabe nas mesmas naves porque o RAI tem salas e corredores que se podem dividir; o hip hop entra porque uma festa de capital em dia nacional não se resigna a um só kick. Não é precisa uma lista longa de nomes. É preciso perceber que o cartaz se escreve para um público que já conhece o RAI como edifício e que, nesse 30 de abril, o trata como pista. A programação não deve o calendário a Zwolle. Deve-o a Amesterdão.
A experiência do público é de feira reconvertida. Chega-se de metro ou de bicicleta a sul da cidade. Entra-se por portas pensadas para congressos. Caminha-se por corredores que em dias úteis cheiram a alcatifa de stand e, nesse dia, cheiram a fumo de máquina e a cerveja de copo. De dia a luz das naves é fluorescente e alta. De noite — se um Koningsdag posterior alongar o formato — o recinto aperta e o techno pede menos conversa. Não há campismo. O after é a própria cidade: um eléctrico, um bar de Zuid, um ouvido que ainda leva o kick do RAI.
Mais tarde o nome viajou para outras cidades — Den Bosch entre elas. Isso conta-se aqui como geografia, não como uma linha de anos. Um Kingsland noutra praça neerlandesa não é uma sequela numerada. É o mesmo ouvido de house e dia nacional aplicado a outro pavilhão, com outro mapa de comboio. Quem visita Den Bosch não visita o RAI. Visita outra nave, outra praça, outra forma de encher um dia laranja sem se mudar para Amesterdão. A franquia, se se quiser a palavra, é de lugar, não de calendário.
Há uma contradição útil: o festival é massivo e, ao mesmo tempo, cabe num edifício que o resto do ano vende feiras. Vinte e cinco mil pessoas em 2013 não transformam o RAI num campo. Transformam-no numa excepção. Quem entra sabe que amanhã o mesmo betão pode voltar a ser um stand de automóvel. Essa temporalidade do edifício faz parte do carácter. O Kingsland não pede ao RAI que deixe de ser feira. Pede-lhe que, num dia de festa nacional, soe.
O Kingsland Festival percebe-se melhor como uma Koninginnedag que escolheu o betão de uma feira em vez de um lago de província. Entre 30 de abril de 2013 e as naves do RAI, entre ALDA, EA e Veronica, entre Armin e o hip hop que cabe no mesmo corredor, Amesterdão tem uma festa de rei — e antes, de rainha — que não se deixa traduzir como sucursal de Zwolle. O RAI empresta o tecto; a capital empresta o metro. Fica um ouvido de exposição que, quando o país se põe laranja, soa a house e a techno no mapa correcto.
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