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2023Kolorz Festival 2023
Números, sede e manias da casa
Em Carpentras, o pátio do Hôtel-Dieu não é um recinto de rave anónimo. É o pátio de um hospital histórico: pedra, calor do Vaucluse, uma cidade pequena que Pascal Maurin quis pôr no mapa do house e do techno. O Kolorz Festival nasceu em 2010 dessa teimosia provençal. Quem chega à procura do Kolorádó húngaro — bosque, acento, parque scout — erra o lettering. Aqui o nome vai sem til, o organizador é Maurin e a agência chama-se Effervescence.
O formato tem dois solos e duas estações. No verão o encontro sai para o pátio do Hôtel-Dieu: céu, pedra quente, uma pista à escala humana. No inverno mete-se no Espace Auzon, sala coberta, outra acústica, outro casaco. Não é um extra de calendário. É a tese: a mesma cidade, o mesmo ouvido, dois corpos. Quem só conhece o pátio de junho não ouviu o Kolorz de março. Quem só conhece Auzon não suou a pedra de agosto.
Maurin assina a origem e por vezes o cartaz: as crónicas recordam-no também como Peck, DJ do próprio alinhamento. A Effervescence não aparece como uma marca de refrigerante na lona. Aparece como o escritório que transformou uma vontade de cidade — fazer qualquer coisa pela renommée de Carpentras — num festival de house e techno. Em 2020, aos dez anos, o Dauphiné contou-o assim: artistas que tratam a vila como uma paragem europeia, não como uma aldeia de enchimento. O número dez ancora uma década; não abre um capítulo do que se segue.
O ouvido é house e techno, com uma asa disco quando o cartaz o pede. Nomes como Cerrone, Folamour ou Octave One servem para ouvir o alcance — herança, house contemporâneo, groove de Detroit — não para transformar o texto numa lista. Maurin disse que lhe interessa misturar figuras históricas com DJs mais jovens e talentos locais. O público do Kolorz não compra um armazém berlinense exportado para sul. Decide deslocar-se até um pátio de Carpentras que se declara electro sem deixar de ser provençal.
A experiência infere-se do formato real. No verão chega-se ao centro, atravessa-se um pátio, sua-se. Há mistral ou um calor que pega na pedra. Bebe-se, dança-se, procura-se sombra num arco. Não há campismo de bosque: hotel, carro, comboio, ou a própria vila. No inverno entra-se em Auzon, deixa-se o casaco, aguenta-se até de madrugada numa sala que não finge ser uma clareira. As duas noites pedem público de pé. O after não é um bairro de clubs a duas ruas: é Carpentras, que de dia volta a ser mercado e, umas vezes por ano, pista.
Não se deve misturar este pátio com o Kolorádó. Lá o acento marca a Hungria, Csete e Vera, um cserkészpark, eletrónica e indie na lama. Aqui o Kolorz é Maurin, Effervescence, Hôtel-Dieu e Auzon, house e techno do Vaucluse. Misturá-los é misturar um acampamento scout com um hospital de pedra. Também não se mistura o Kolorz com um techno de praia genérico da Costa: Carpentras não é uma marca de lona à beira-mar. É uma cidade de interior que apostou em DJs.
A escala conta-se com prudência. As crónicas falam de milhares, não de uma massa de ilha. O teto põem-no o pátio e a sala: pode encher-se sem fingir ser um open-air de costa. Essa medida faz parte do carácter. Quem vem de Avinhão ou de mais longe não encontra um recinto periurbano de vedações infinitas. Encontra um centro e um nome que cabe num fim de semana. Uma década de crescimento não apaga a origem: uma vontade de vila, não um plano de franchise.
De dia Carpentras continua mercado, rua estreita, uma vila que não finge ser Berlim. Essa contradição é o carácter: come-se, atravessa-se a praça, e a certa hora o pátio ou Auzon pedem outro corpo. Quem vem de mais longe percebe depressa que o festival não engole a cidade. A cidade engole o festival umas noites e depois recupera o silêncio. Não é preciso inventar um after de costa. Basta o contraste: Hôtel-Dieu às sete da tarde, e o mesmo pátio quando o volume já não pede licença.
Quem sai do Hôtel-Dieu com a pedra ainda quente percebe por que Maurin não foi para uma costa. Entre o pátio e Auzon, entre Peck e a Effervescence, entre o house e o techno, Carpentras teve um festival que não pediu o lettering emprestado à Hungria. Kolorz — sem acento — ancora a tese: dança-se num hospital de verão e numa sala de inverno, na mesma cidade. Fica um encontro provençal que aprendeu a ser europeu sem deixar de ser do Vaucluse.
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