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Números, sede e manias da casa

Edições documentadas12023–2023
Anos de história27 anosdesde 2000
País habitualMéxico

Sobre o festival

Na Cumbre Tajín, a música da noite começa muito antes de alguém subir ao palco principal. Começa pela manhã, quando a fumaça das cozinhas tradicionais se mistura com plantas medicinais, um visitante aprende algumas palavras em totonaco, uma artesã explica um desenho que nunca nasceu como simples souvenir e os Voladores se preparam para uma cerimônia muito mais antiga do que qualquer festival moderno. A cidade arqueológica de El Tajín está próxima, mas o coração contemporâneo do encontro é o Parque Takilhsukut. Ali existe uma ideia essencial: a cultura totonaca não deve ser apresentada como uma civilização desaparecida. Ela continua falando, cozinhando, dançando, curando, ensinando e encontrando novas maneiras de transmitir conhecimento.

Cumbre Tajín nasceu em torno do equinócio da primavera de 2000, quando Veracruz criou um encontro ambicioso para aproximar o Totonacapan de um público nacional e internacional. O projeto cresceu rapidamente. Durante o dia, ritual, artesanato, medicina tradicional, dança, gastronomia e conhecimento comunitário ocupavam o parque; à noite, grandes artistas mexicanos e internacionais podiam tocar diante de dezenas de milhares de pessoas. Esse contraste virou uma de suas imagens mais conhecidas. Mesmo assim, descrevê-lo apenas como um festival de música perto das pirâmides diminui demais a história. Os shows funcionaram como uma porta de entrada poderosa, mas nunca foram todo o projeto.

Um dos passos mais importantes foi o desenvolvimento do Centro de las Artes Indígenas. Instalado em Takilhsukut, ele continua trabalhando quando o festival termina através de casas-escola que transmitem conhecimento a partir de uma visão totonaca: cerâmica, têxteis, medicina tradicional, dança, música, palavra, gastronomia, arte e relação com o território. Em 2012, UNESCO colocou esse modelo no Registro de Boas Práticas de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Isso ajuda a explicar por que Cumbre Tajín não funciona como um festival musical convencional. Parte de sua infraestrutura cultural mais importante não é desmontada depois do último concerto. Mestres e alunos continuam ali durante o resto do ano.

A cerimônia também não funciona simplesmente como espetáculo de abertura. Antes do festival, autoridades tradicionais pedem permissão no Kantiyán, a Grande Casa da Sabedoria Totonaca. Avós e anciãos conduzem práticas ligadas à memória, espiritualidade, comunidade e renovação. O equinócio da primavera é, portanto, mais do que uma data bonita para o calendário turístico. Ele coincide com ciclos significativos para o território. Alguém pode chegar interessado principalmente num show noturno e passar a tarde ouvindo uma cozinheira tradicional, entrando numa casa-escola, observando fibras vegetais sendo trabalhadas ou entendendo que uma dança também representa responsabilidade comunitária.

Durante os anos de maior projeção internacional, o Nicho de la Música transformou Papantla numa parada extraordinária do circuito global. Björk passou pela Cumbre Tajín, assim como Tool, Pet Shop Boys, The Smashing Pumpkins, Calvin Harris, Fatboy Slim, Santana, Incubus, The Flaming Lips, Empire of the Sun, Juanes e Ziggy Marley. Rock alternativo, eletrônica, reggae, música regional mexicana, pop latino e tradição podiam aparecer na mesma edição. O programa de 2013 representa bem essa liberdade: Juanes e Ziggy Marley, Pet Shop Boys e Regina Spektor, The Smashing Pumpkins, Calvin Harris e Fatboy Slim e, no fechamento, Los Tigres del Norte. Poucos festivais conseguiam atravessar tantos públicos sem precisar escolher uma única identidade musical.

Esse espetáculo internacional também provocou discussões sobre o equilíbrio entre turismo, entretenimento e cultura indígena. Nos anos recentes, o festival voltou a enfatizar com mais força as comunidades totonacas. Turismo comunitário, língua, agricultura, patrimônio biocultural e transmissão de saberes aparecem no centro da programação. A escala continua enorme. Em 2023 o governo registrou mais de 713 mil visitantes; em 2024, durante seis dias, quase 988 mil. Esses números representam fluxo acumulado pelos diversos espaços e não uma multidão simultânea diante do palco, mas mostram a capacidade excepcional de mobilização regional.

A pandemia havia interrompido essa continuidade. Cumbre Tajín 2020 chegou a começar, mas o último dia foi suspenso quando COVID-19 começou a alterar os grandes eventos no México. Em 2021, a 22ª edição aconteceu principalmente em formato virtual, com transmissões de Takilhsukut, conversas e conteúdos culturais. Em 2022 o público voltou. A interrupção também revelou algo importante: mesmo sem shows, a comunidade e o Centro de las Artes Indígenas continuaram existindo e trabalhando.

De 20 a 22 de março de 2026, Cumbre Tajín voltou sob o lema “Tapaxawan: alegría que une culturas”. Mais de 2.800 portadores de cultura ocuparam 39 espaços com oficinas, gastronomia, medicina ancestral, dança, artesanato e música. À noite, La Original Banda El Limón, Yuridia, Lila Downs e Grupo Cañaveral mostraram diferentes vertentes da música popular mexicana. O balanço oficial chegou a 199.088 participantes. Ainda não há datas oficiais para 2027. Quando a próxima edição chegar, provavelmente acontecerá novamente o detalhe que melhor explica a Cumbre: muita gente viajará por causa de um artista conhecido e voltará para casa lembrando de outra coisa — uma palavra em totonaco, uma cerimônia, uma cozinheira, um Volador ou a percepção de que, ao lado de uma das grandes cidades pré-hispânicas do México, existe uma cultura antiga cuja maior força está justamente em nunca ter deixado de ser presente.

Site oficial · www.festivalcumbretajin.com.mx/home.html

Redes

Géneros

HOUSE

REGGAE

ROCK

Ficha

Mês habitual
março
Duração típica
6 dias
Cidade habitual
Papantla, Veracruz
Organizador
Unidos por el Tajín A.C. (Gastón Melo-Medina, origen)
Primeira edição
2000

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