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2027
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7 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
Quando amanhece no Day Zero, a sensação não é exatamente a de uma festa chegando ao fim. O sistema de som continua funcionando, a pista permanece cheia e um dos sets mais esperados pode estar acontecendo naquele momento, mas ao redor do público a paisagem começa a mudar de forma inevitável. Árvores que durante horas pareciam apenas silhuetas recuperam cor, as luzes artificiais perdem intensidade e a selva volta a aparecer. Essa transformação explica o festival melhor do que qualquer slogan. Damian Lazarus criou Day Zero como uma única jornada longa, do fim da tarde até a manhã seguinte, e não como uma sequência de dias interrompidos por saídas, hotéis e recomeços programados.
Tudo começou em 21 de dezembro de 2012, quando o encerramento de um ciclo do calendário maia era popularmente interpretado como uma suposta previsão do fim do mundo. Lazarus decidiu olhar para a data pelo sentido oposto: o fim de uma etapa poderia ser um reinício, um ponto zero para começar outra vez. A primeira celebração na Riviera Maya reuniu 3D do Massive Attack, James Lavelle, Jamie Jones, Trentemøller, Acid Pauli e outros nomes da música eletrônica. O que poderia ter sido uma festa única, presa a uma data irrepetível, virou tradição. Day Zero passou a retornar em janeiro e encontrou na região de Tulum e em sua paisagem de selva e cenotes o cenário que acabaria definindo sua personalidade.
Essa paisagem não funciona como decoração. Na área de Dos Ojos, vegetação, caminhos e formas naturais do terreno determinam como o evento é percorrido. Não se entra num grande campo plano com todos os palcos visíveis à distância. É preciso caminhar pela selva, seguir passagens e encontrar diferentes áreas aos poucos. Luzes atravessam a copa das árvores, estruturas surgem integradas ao ambiente e algumas pistas podem parecer bastante isoladas apesar da dimensão do público. O deslocamento entre elas faz parte da experiência. Sair de um espaço e levar alguns minutos até outro permite que o corpo e os ouvidos percebam uma mudança de atmosfera mais profunda do que simplesmente trocar de palco.
A relação com a cultura maia exige mais cuidado. Desde as primeiras edições, Lazarus trabalha com participantes e figuras locais, incorporando cerimônias, performances e referências às narrativas tradicionais da região. Ao mesmo tempo, Day Zero acontece num Tulum que passou por uma explosão turística e onde a apropriação superficial de símbolos indígenas e os impactos ambientais da vida noturna são assuntos impossíveis de ignorar. O festival tem respondido com programas concretos de sustentabilidade e comunidade: mercado sem plástico, alimentos fornecidos por produtores locais, limpeza de microplásticos, conservação de tartarugas e instalação de iluminação solar para famílias da comunidade de Dos Ojos estão entre as iniciativas desenvolvidas recentemente.
Musicalmente, entretanto, Day Zero continua sendo um evento profundamente ligado à cultura de clube contemporânea. House e techno formam sua base, mas dentro desses territórios existe bastante liberdade. Jamie Jones, Black Coffee, Four Tet, DJ Tennis, Bedouin, Dubfire e Ellen Allien representam escolas diferentes; Acid Pauli e Nicola Cruz ampliam a linguagem com elementos mais orgânicos e ritmos de outras tradições. Artistas conhecidos como Fatboy Slim, Marco Carola e Vintage Culture também apareceram sem transformar o festival em uma reunião genérica de EDM. A curadoria privilegia DJs e live acts capazes de sustentar uma pista por longos períodos e entender que tocar durante a madrugada exige uma energia diferente daquela necessária quando o céu começa a clarear.
O crescimento trouxe mais opções. Em 2019, Day Zero já incorporava um segundo espaço musical; hoje trabalha com três palcos. Essa expansão permite atravessar ambientes diferentes, mas também torna impossível tratar o lineup como uma lista que precisa ser completada. Horários se sobrepõem, caminhadas levam tempo e uma festa de mais de doze horas exige atenção ao próprio corpo. Água, comida, descanso e escolhas sobre quando economizar energia acabam tendo tanto peso quanto a programação. É bastante fácil chegar com um plano detalhado e abandoná-lo depois de encontrar uma pista que parece funcionar melhor naquele momento. Day Zero recompensa a curiosidade e a permanência mais do que a eficiência.
A edição de 10 de janeiro de 2026 ultrapassou dezessete horas de música. Seth Troxler, Cinthie, Vintage Culture, Mau P, Acid Pauli, Nicola Cruz, Traumer e Superpitcher ocuparam diferentes pontos da noite, enquanto Damian Lazarus continuava como elo central do projeto e terminou o percurso ao lado de Marco Carola. A essa altura, a ideia já havia ultrapassado Tulum. Em 2019, Day Zero chegou a Masada, próximo ao Mar Morto, e posteriormente ganhou uma edição em Bali. O interesse dessas expansões está justamente em não reproduzir uma falsa selva mexicana em outro país. A intenção é partir novamente do território e procurar uma paisagem cuja história e natureza sejam fortes o bastante para transformar a própria festa.
A próxima edição de Tulum já está marcada para 9 de janeiro de 2027. &ME, Chloé Caillet, Culoe De Song, Jane Fitz, LP Giobbi, RPR Soundsystem, Satori, Tiga, Victor Calderone, Vintage Culture e Lazarus estão entre aproximadamente trinta artistas distribuídos por três palcos. Quinze anos depois da primeira celebração ligada ao calendário maia, a ideia de “começar novamente” poderia ter virado apenas uma frase repetida. O que ainda lhe dá sentido é a estrutura real da noite. O público entra enquanto existe luz, passa horas dentro de um mundo construído na mata e permanece até que o amanhecer desmonte lentamente essa ilusão. É nesse instante, quando a floresta volta a dominar a paisagem, que Day Zero encontra seu fechamento mais específico.
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