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No auge do verão, quando o calor se instala sobre o rio São Lourenço, Trois-Rivières deixa de parecer uma etapa entre duas metrópoles e transforma-se numa partitura viva. As ruas do bairro histórico, as margens do parque portuário e as fachadas patrimoniais enchem-se de palcos temporários, filas à porta de um bar convertido em sala de concertos e conversas cruzadas entre quem acaba de sair de um espetáculo e quem já procura o seguinte. O FestiVoix funciona assim: não como recinto fechado, mas como tecido urbano onde a voz — em todas as suas formas — continua a ser o fio condutor de uma celebração que demorou décadas a reinventar-se sem esquecer a origem.
Essa origem é municipal e deliberada. Em 1993, a Ville de Trois-Rivières impulsionou a criação do International de l'Art Vocal, festival concebido para valorizar o canto num momento em que o coro ganhava terreno no Quebec. A primeira edição, no parc Champlain, concentrou a proposta em torno da arte vocal, com um palco dedicado ao canto coral. Nasceu também para preencher o vazio deixado por vários encontros festivos locais desaparecidos na década anterior e para afirmar a identidade cultural de uma cidade situada entre Montreal e Quebec City, fora do eixo metropolitano mas determinada a construir o seu próprio referente musical.
Os anos seguintes trouxeram profissionalização e ambição. Sob a direção de Daniel Gélinas, entre 1997 e 2001, o festival elevou o nível com concertos pensados como acontecimentos e ampliou a projeção internacional. O crescimento do público — numa edição de princípios dos anos 2000 superior a cento e cinquenta mil presenças em oito dias — levou a cidade a desenvolver novas infraestruturas no parque portuário. O que começara como aposta vocal tornou-se encontro estival capaz de atrair figuras consolidadas da chanson québécoise e de colocar Trois-Rivières no calendário veraneio da província.
A mudança de nome em 2008 — FestiVoix de Trois-Rivières — marcou identidade nova sem apagar a memória. A organização, já OBNL independente sob o guarda-chuva FestiVoix de Trois-Rivières, quis refletir uma programação que há muito ultrapassara os limites do canto académico: jazz, pop, rock, chanson, vozes do mundo, folk, tradição e até propostas eletrónicas convivem em eixos como Voix jazz, Voix émergentes, Voix populaires ou Voix multiples. A contradição é produtiva: um festival que nasceu para celebrar a voz como disciplina converteu-se no festival de todas as vozes, mantendo a lógica curatorial que distingue cada palco.
O formato atual é urbano e expansivo. Durante nove dias consecutivos, mais de cento e trinta espetáculos distribuem-se por quinze palcos espalhados entre o centro, o bairro histórico, a orla fluvial e o parque portuário. Cada plataforma tem atmosfera e cenografia próprias; não se trata de repetir o mesmo concerto em locais diferentes, mas de oferecer percursos distintos dentro da mesma cidade. Mais de seiscentos artistas — consagrados e emergentes, locais e internacionais — passam por essas plataformas numa edição típica, o que faz do FestiVoix um dos eventos culturais e turísticos de maior peso na Mauricie e o arranque simbólico da temporada estival québécoise.
A programação equilibra acessibilidade e exigência. Cerca de um terço dos espetáculos é oferecido sem custo de entrada, com a scène du Quai entre os espaços emblemáticos dessa política. Crianças com dez anos ou menos acedem gratuitamente à admissão geral, incluindo famílias num festival pensado tanto para a descoberta como para a comodidade logística de um ambiente central e pedonal. Pop, rock e jazz ocupam lugar central na identidade atual, ao lado de chanson, coros, música tradicional e artistas em formação que encontram nas categorias de vozes emergentes uma vitrine real, não decorativa.
Imaginar a experiência do público implica caminhar. Chegas ao centro e o recinto não é um só: é uma sucessão de praças, cais, pátios patrimoniais — como o do mosteiro das Ursulines ou a terrasse Turcotte — e salas de bar transformadas em palcos íntimos. De dia, o ambiente mistura turistas, moradores e visitantes da província; à noite, as filas alongam-se para os concertos de maior convocatória enquanto o rio permanece pano de fundo constante. Não é preciso acampar nem atravessar quilómetros de campo: a cidade é o venue, e isso altera por completo a relação entre artista e espectador, mais próxima e menos ritualizada do que nos mega-festivais de relvado.
Essa proximidade tem também dimensões sociais e ambientais. Há mais de quinze anos que o FestiVoix integra desenvolvimento sustentável no planeamento — transportes, resíduos, eficiência energética, acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida — em colaboração com parceiros locais e industriais. Reconhecimentos regionais e nacionais em turismo, cultura e gestão de voluntariado refletem uma organização que trata o festival como infraestrutura cívica, não espetáculo isolado. Centenas de milhares de visitas numa edição consolidada confirmam a confiança do público mauricien, québécois e internacional.
O que permanece, para além da escala alcançada, é a aposta na voz como território partilhado. O FestiVoix não se reduz a uma lista de cabeças de cartaz: é a soma de coros que estreiam repertório junto ao rio, cantautores nos bares do centro, formações jazz em pátios históricos e estrelas pop em frente ao porto. Trois-Rivières presta-se como palco porque o festival aprendeu a habitá-la sem a domesticar, usando o património urbano como parte do concerto. Nessa tensão entre origem vocal e presente multigeracional reside a personalidade: um encontro em que a cidade inteira canta, cada verão, com vozes distintas sob o mesmo céu da Mauricie.
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