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Números, sede e manias da casa
Num sábado de manhã Victoria Park acorda de outro modo. Não é um aeródromo rural nem um recinto murado na província: é o pulmão verde do East End londino, ladeado por canal e blocos de habitação, onde os Radiohead tocaram um dia debaixo de tenda e onde, desde o estreia em 2007, Field Day transformou aquele espaço público em algo parecido a uma feira de aldeia levada ao volume da capital. Chega-se de Overground ou caminha-se a partir de Hackney e Mile End, e o parque já soa antes de se ver o primeiro palco. O que distingue Field Day não é só o cartaz: é a sensação de que alguém trouxe o campo à cidade sem mentir a nenhum dos dois lados.
A semente não nasceu num prado. Tom Baker, da Eat Your Own Ears, e Marcus Weedon, então à frente do Griffin em Old Street, tinham experimentado antes Return Of The Rural: um fim de semana gratuito à porta do pub, em parte como resposta à crise da febre aftosa de 2001, quando a imprensa britânica enchia páginas com imagens desoladoras do campo. Queriam celebrar o rural com música ao vivo — James Yorkston, Beth Orton, Clinic, Four Tet acústicos — e provar que os campos podiam ter presença na cidade. Quando aquela experiência funcionou, a pergunta seguinte escreveu-se sozinha: e se fizermos maior? Weedon garantiu Victoria Park; Baker reuniu Adventures In The Beetroot Field, Bugged Out, Bloggers Delight e Homefires como parceiros curatoriais. Field Day foi anunciado como a nova feira psicadélica de verão londrina.
A primeira edição abriu a 11 de agosto de 2007. Mais de cinquenta artistas em quatro palcos e um quiosque musical, capacidade inicial prevista em cerca de seis mil bilhetes, ampliada para cerca de dez mil pouco antes do dia — e esgotada. Underage Festival estreou no mesmo fim de semana, partilhando datas e público jovem, mas Field Day apontava a outra mistura: Foals, Caribou e Bat for Lashes junto a Justice, Four Tet e Erol Alkan; Florence and the Machine, Laura Marling, Mystery Jets e Late of the Pier ainda a encontrar forma. As crónicas da altura leram-no como alternativa curada aos mega-eventos de marca em Hyde Park: menos logótipo, mais ouvido.
Em paralelo com as pistas de dança e as guitarras indie, Field Day cultivou desde o início uma área chamada Village Mentality — antes Homefires — onde o festival recuperava a feira de aldeia inglesa: corridas de sacos, cabo de guerra, corrida do ovo, concursos de comer e sessões de banda de metais. Tom Baker descreveu-a como o que separava Field Day do resto: não mais um palco, mas uma zona onde se joga, se crafta e se ouve brass band enquanto o resto do parque pulsa de outro modo. Natalie Silk, parceira de Baker, curou aquele canto. O contraste era deliberado. A cem metros Justice podia encher uma pista; aqui alguém tentava ganhar uma corrida absurda sob o sol de agosto.
A identidade musical nunca foi de uma só cena. Field Day viveu na fronteira onde o indie de guitarra — Mystery Jets, Electrelane, The Earlies — se cruzava com a electrónica de clube — Andrew Weatherall, Matthew Dear, Zombie Disco Squad — e o pop inteligente que Londres exportava naquela década. A imprensa especializada recorda nomes que cresceriam muito: Mumford & Sons, Florence + The Machine, James Blake e FKA Twigs passaram pelo parque em fases diferentes. Com o tempo a programação inclinou-se mais para a electrónica — Chemical Brothers, Floating Points, Bicep, Aphex Twin em edições posteriores — sem renunciar por completo ao espírito de descoberta dos primeiros anos. O festival tornou-se termómetro do que soaria bem na cidade meses depois.
Viver Field Day é viver um festival verdadeiramente urbano. Não há camping nem autocarros nocturnos em auto-estrada: chega-se de metro, Overground ou bicicleta, entra-se pelos portões do parque e caminha-se entre palcos em relva e caminhos. O recinto é compacto comparado com campos rurais, mas denso: sobreposições impossíveis, filas no bar, abrigo debaixo das árvores quando agosto aperta ou chuvisca. De dia o parque parece familiar, quase doméstico; de noite luzes e grave transformam Victoria Park noutra cidade dentro da cidade. Não custa imaginar quem reorganiza o horário entre Bugged Out e o palco principal, ou quem fica mais tempo em Village Mentality porque a corrida de sacos foi mais divertida do que um set programado.
A escala mudou com o tempo. De dez mil bilhetes em 2007 passou a vinte mil em 2008; mais tarde a lotação aproximou-se dos trinta mil. Field Day permaneceu em Victoria Park durante uma longa década, mudou em 2018 para Brockwell Park, experimentou Meridian Water em 2019 e voltou ao East End em edições posteriores, alternando parques conforme licenças e vizinhança. Passou de um dia a dois em 2014; criou um evento irmão, Apple Cart, em 2011; lançou Field Day Radio com sessões pré-festival. Em 2021 ligou-se à estrutura All Points East; em 2023 Superstruct Entertainment adquiriu o festival. Cada mudança de sede alterou o percurso — Brockwell tem outra topografia, outras ruas em redor — mas a promessa curatorial, para quem o segue desde o início, manteve-se: programação corajosa que não fala por baixo ao público.
O que Field Day deixou claro desde o estreia é que Londres não precisava de mais um festival genérico: precisava de um que tratasse a cidade como palco. Victoria Park não é Glastonbury nem Reading; é um parque municipal onde a feira de aldeia e a pista de clube coexistiram num sábado de agosto. Essa mistura — rural no formato, metropolitana no público — é a pegada que não se troca por outro nome no calendário.
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