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Números, sede e manias da casa
Numa sexta-feira à noite a Arena Wien soa de outro modo: não é uma sala fechada mas um pátio aberto onde o hip hop germanófono partilha o mesmo ar que a FM4 transmite em directo por todo o país. Essa imagem — uns seis mil pessoas num recinto urbano sem campismo, sem estacionamento vasto, sem a maquinaria de um mega-festival de campo — condensa o paradoxo inaugural do FM4 Frequency Festival: nasce pequeno e citadino em Viena, mas desde o primeiro dia persegue uma ambição que a Áustria mal conhecia — vários dias, vários géneros, público jovem, e a convicção de que a música alternativa podia encher espaços tão grandes como os do rock clássico.
Harry Jenner, promotor com percurso em clubes e concertos, impulsionou a primeira edição em Junho de 2001 com o subtítulo Vienna City Festival. A sua empresa Musicnet alugou o palco ao ar livre da Arena, um dos venues mais respeitados da capital, e desenhou dois dias com identidades distintas: um orientado ao hip hop — Seeed, Afrob, Eins Zwo, Rah Digga — e outro ao pop de guitarra e ao indie germano — Blumfeld, Stereo Total, 2Raumwohnung, Heinz aus Wien, Slut. A FM4, emissora pública austríaca referência do circuito alternativo, entrou como parceira mediática desde a origem; as crónicas recordam transmissões em directo com moderadores da casa e um público que ouvia na Arena e em casa ao mesmo tempo. Esse vínculo radiofónico não foi patrocínio decorativo: definiu o tom curator do festival durante anos.
A estreia reuniu cerca de seis mil participantes com meteorologia difícil. Jenner reconheceu depois que o formato urbano — sem campismo, sem grande restauração periférica — não correspondia à experiência que procurava. A Áustria já tinha festivais consolidados em ambiente campestre — Jazzfest Wiesen, Two Days A Week, Forestglade —, mas faltava um evento multigeneracional de vários dias com campismo e estacionamento como na Alemanha. A lição foi clara: era precisa outra escala e outro terreno. No ano seguinte o Frequency mudou-se para o Salzburgring, circuito de corridas nos arredores de Salzburgo, onde o campismo e a amplitude do recinto permitiram multiplicar afluências.
A fase Salzburgring cresceu com a urgência de provar que um autódromo podia tornar-se cidade temporária de música. Apareceram nomes que explicam a identidade indie e rock daqueles anos — Sonic Youth, Tocotronic, Die Ärzte, Sportfreunde Stiller — e o cartaz começou a misturar cabeças de cartaz internacionais com bandas do circuito germano-austríaco. A imprensa local leu-o como o momento em que o Frequency deixou de ser experiência vienense e se tornou encontro estival recorrente. O crescimento trouxe também tensões logísticas: edições com capacidade muito alta, filas, chuva persistente que transformou o campismo em lama, anedotas que o público austríaco ainda guarda como folklore do festival.
Um episódio singular foi a contratação da Metallica como cabeça de cartaz num ano em que a banda tinha também data no estádio de Salzburgo no mesmo fim de semana; Jenner conseguiu trazê-la ao recinto do festival, multiplicando a assistência mas testando segurança e fluxos de público. Fontes especializadas descrevem horas de congestão sob a tenda secundária, entradas irregulares e sensação de saturação que obrigou a repensar circulações. Mais tarde, um acidente com uma estrutura provisória deixou feridos e reforçou a necessidade de profissionalizar a produção. Estes episódios não são todo o relato, mas ajudam a entender por que um festival que começou íntimo em Viena acabou obcecado com escala, segurança e experiência global.
A identidade musical do FM4 Frequency Festival construiu-se a partir da amplitude que a FM4 representava na rádio austríaca: rock alternativo, indie, hip hop, electrónica e pop cruzado sem compartimentos estanques. Nos primeiros anos predominavam as bandas de guitarra do mundo germanófono e os nomes que a FM4 tinha convertido em hits de culto; com o tempo o cartaz acolheu cabeças de cartaz internacionais, DJs de EDM, figuras do rap austríaco e alemão e artistas pop que reflectem como «alternativo» e «mainstream» se difuminaram na Europa. Jenner resumiu-o em entrevistas: o que antes se chamava alternativo e vendia discos hoje chama-se pop e partilha palco com electrónica e hip hop. O festival funciona como termómetro dessas mudanças mais do que como montra de um só género.
Em 2009 o evento deixou o Salzburgring e instalou-se no VAZ de St. Pölten, junto ao rio Traisen. O recinto ofereceu dois palcos ao ar livre, um Nightpark até ao amanhecer, campismo junto à água e um ecossistema de entretenimento para um público jovem e exigente. O festival que nasceu sem campismo acabou por oferecer música e lazer integrados. Jenner justificou-o apontando que cada geração pede mais conforto e estímulos paralelos às main stages.
Se acampas junto à Traisen, o fim de semana mistura ritual e caos: tendas, distâncias entre palcos, decidir se ficas no Nightpark após a cabeça de cartaz. A sobreposição de horários faz parte do jogo. As crónicas recordam concertos de tarde convertidos em momentos colectivos e descobertas em palcos secundários antes de artistas como Alt-J, Billie Eilish ou Yung Hurn explodirem comercialmente. A pandemia interrompeu a continuidade anual com cancelamentos, capítulo associado ao festival.
O FM4 Frequency Festival ocupa um lugar singular no mapa centro-europeu porque mostrou que um promotor independente podia, a partir de Viena, criar um macroevento que compete com os grandes formatos alemães sem renunciar por completo ao ADN da FM4: curiosidade, mistura geracional, e a sensação de que a rádio e o directo partilham o mesmo pulso. A sua história é a de um salto deliberado do pátio urbano ao autódromo e do autódromo ao parque musical de lazer, sempre com a mesma pergunta de fundo: até onde pode crescer um festival sem perder a identidade que o tornou possível junto a uma emissora que ouve antes dos restantes?
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