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2027Isle of Wight Festival 2027
2026Isle of Wight Festival 2026
Números, sede e manias da casa
O Solent funciona como limiar. Para entrar no Isle of Wight Festival sobe-se a um ferry ou a um hovercraft, deixa-se o continente inglês e aceita-se que a ilha decide o ritmo da chegada. Esse filtro geográfico não é nota de transporte. Junta o público num mesmo gesto — atravessar água — e transforma o campismo e os campos de Seaclose Park, junto a Newport, num recinto que se alarga para o vale do Medina. Quem chega com mochila percebe que o festival não está colado a uma cidade-dormitório. Instala-se numa ilha que obriga a ficar.
A primeira vida do evento foi escrita pelos irmãos Ron e Ray Foulk, com Bill Foulk, através da Fiery Creations Ltd, entre 1968 e 1970. Em 1968 o recinto foi a Ford Farm, também conhecida como Hells Field, perto de Godshill: cerca de dez mil pessoas e um cartaz que já misturava rock psicadélico e folk britânico. Jefferson Airplane, Arthur Brown, The Move, Tyrannosaurus Rex, Fairport Convention e Pretty Things desenharam um fim de semana ainda manejável, mais próximo de um encontro de cena do que de um fenómeno nacional. A ilha ainda não era sinónimo de transbordo.
Um ano depois o palco mudou para Wootton Creek. Bob Dylan tocou com The Band; The Who e Joe Cocker partilharam o mesmo horizonte. No público viram-se John Lennon e Yoko Ono, George Harrison e Ringo Starr como espectadores, não como cabeças de cartaz. Essa imagem — estrelas no meio de uma multidão de ilha — antecipou o que 1970 faria transbordar. O festival deixava de ser um ensaio local para se tornar um íman que o condado ainda não sabia regular.
Em 1970, Afton Down, perto de Freshwater, reuniu Jimi Hendrix, The Doors, The Who, Miles Davis, Joni Mitchell, Leonard Cohen e Emerson, Lake & Palmer. O número de assistência continua em disputa: agências falaram de cerca de duzentos e cinquenta mil; o Guinness situou a faixa entre seiscentos e setecentos mil; Ray Foulk diz que metade desse pico é mais honesta. O desacordo importa porque nomeia o carácter do episódio: um encontro que ultrapassou a capacidade de contar e de vigiar. Depois daquele verão, o Isle of Wight County Council Act de 1971 limitou reuniões nocturnas de mais de cinco mil pessoas sem licença. O original apagou-se por lei tanto como por saturação.
Murray Lerner filmou aquele material e mais tarde montou-o em Message to Love, estreado em 1996. O documentário não fecha o debate das cifras; fixa imagens: vedações, improvisação, um Hendrix já perto do fim, um recinto que parece uma vila improvisada. Quem quiser perceber por que a ilha ficou na história do rock britânico não precisa de uma lista mais longa. Precisa desse corte entre ambição musical e um território que não estava preparado para um quarto de milhão de pessoas, nem para o dobro.
O relançamento chegou em 2002 com o nome Rock Island: um dia em Seaclose Park com The Charlatans e Robert Plant e um público de cerca de oito a dez mil. John Giddings e Caroline Giddings, pela Solo Promoters Ltd, retomaram o fio. O formato cresceu de um dia para um fim de semana que se alonga no calendário e no terreno: os campos abrem-se para o vale, o campismo vira bairro temporário, o ferry volta a ser parte do rito. A ilha continua a filtrar; o recinto, em contrapartida, aprendeu a expandir-se sem repetir o aperto de Afton Down.
A 13 de junho de 2004 David Bowie deu neste festival o seu último concerto no Reino Unido. O dado não é souvenir. Coloca Seaclose numa biografia que já não cabia em clubes. Nas épocas do revival, The Who, R.E.M., Fleetwood Mac, The Rolling Stones, Coldplay, Foo Fighters e The Police ilustram outra lógica: o cartaz já não procura só a novidade psicadélica de 1968, mas um diálogo entre rock clássico, pop de estádio e indie que cabe num fim de semana familiar e massivo ao mesmo tempo. Os nomes medem a mudança de escala; não são um almanaque para recitar.
Em 2020 o festival parou por causa da pandemia. Essa pausa é um facto histórico, não um título de época: confirma que mesmo um recinto assentado depende de barcos, de lotação e de um país fechado. Quando voltou a convocar, a chegada manteve-se a mesma cena — fila no porto, tenda na relva, palco visível a partir de mais do que um campo. O clima inglês, a lama possível e a sensação de estar longe do continente continuam a fazer parte do contrato tanto como a cabeça de cartaz de sábado.
Isle of Wight Festival ocupa um lugar estranho: é memória de contracultura e, ao mesmo tempo, um fim de semana contemporâneo de rock, pop e indie organizado com ofício de promotora. A contradição não se resolve. Quem atravessa o Solent pisa um condado que uma vez legislou contra as multidões nocturnas e que, décadas depois, voltou a encher Seaclose noutro registo. A água continua a ser o limiar; o campismo, o vale, a história filmada e o velho problema de escala distinguem esta ilha de qualquer pradaria continental.
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