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Números, sede e manias da casa
O adro da catedral de Reims já não dava ar. Treze edições do Elektricity — a de setembro de 2015 entre elas — tinham cabido ao pé de Notre-Dame com uma jaula de quatro mil e um relógio de fim de verão demasiado tarde para convencer as cabeças de cartaz. Em 2017 a La Cartonnerie e o Césaré não inventaram um festival do nada. Mutaram um. Mudaram o nome, o mês e o chão: 16 a 21 de maio na cidade, 19 a 21 no Parc de Champagne, cerca de doze mil ouvintes citados com prudência. Quem chega à procura da La Linea num palco londrino de músicas latinas erra a sociedade. Aqui a sociedade é rémoise, o ouvido é pop, indie e rock, e o parque pede Belle Époque, não um recinto de feira.
Cédric Cheminaud, diretor da La Cartonnerie, e Philippe Le Goff, o seu homólogo no Césaré, explicaram o baptismo sem metáfora de agência. Passaram seis meses a perguntar se convinha guardar o Elektricity. Mudar datas, lugar e linha artística e conservar o nome só por medo pareceu-lhes um truque. O parque, ao visitá-lo, devolvia uma frase que as crónicas não largam: «C’est magnifique». Daí La Magnifique Society: não um estádio onde se empilha o público, um encontro urbano num quadro bucólico, uma pausa de champanhe e árvores, não um campo de vedações. Quem trata isto como um rebranding cosmética salta uma SMAC e um centro de criação sonora que quiseram recuperar o festival como fogo da sua temporada.
O ouvido já não é só electro. Air, Camille, Vitalic, Agnes Obel, Jamie Cullum, Moderat, Trentemøller: esses nomes medem o salto, não fazem uma lista. O Elektricity tinha ficado apertado no electro e no adro. A La Magnifique Society abre a pop, indie e rock — e ao que a Cartonnerie programa o ano inteiro — sem pedir licença a um clube de género. Em 2017 houve ainda um canto japonês, Tokyo Space Odd, com Suiyoubi no Campanella e DOTAMA: uma cena que Christian Allex trouxe do Tokyo International Music Market. Quem imagina um festival do Champanhe que só serve espumante erra o contrato. Aqui o contrato é musiques actuelles num parque inscrito na memória da UNESCO.
A experiência do público segue o formato real. Três dias de concertos no parque, precedidos de uma semana que as notas chamam Avant-Garde: showcases, instalações, o Cellier, o Palais du Tau, a Comédie de Reims. Caminha-se entre árvores centenárias, não entre paddocks. Sobe-se às alturas da cidade, perto das vinhas, e desce-se à noite para o centro. Quem chega de Paris ou de Lille não encontra um campismo de três dias. Encontra um parque que de outro modo seria passeio, dois palcos e o dever de voltar ao hotel ou ao comboio. O tempo pode ser o de um maio champanhês: fresco ao crepúsculo, aguaceiro que molha a relva, luz longa. O parque emprestou a Belle Époque; a Cartonnerie emprestou o ouvido.
Não se deve misturar esta sociedade com a La Linea. A La Linea é o encontro londrino de músicas latinas. A La Magnifique Society é a de Cheminaud e do Césaré, 2017, Camille e Air no Parc de Champagne. Misturá-las porque ambas vendem um nome de sociedade ou de linha é misturar um parque rémois com um palco britânico. O chão é o Parc de Champagne. O ouvido é pop, indie e rock de um festival que cabe entre uma SMAC e um centro de criação.
Reims não é um subúrbio de Paris. É uma cidade de catedral, de caves e de uma sala — a La Cartonnerie, aberta em 2005, label SMAC — que já tinha inventado o Elektricity e não quis morrer com ele. Os números de 2017 — doze mil, um orçamento de um milhão e meio, em grande parte autofinanciado — não devem virar troféu. Servem para medir que um nome que ninguém conhecia quatro meses antes encheu um parque sem fingir que era o herdeiro automático do adro. O crescimento depois, seis edições entre 2017 e 2023, não apaga a origem: a mutação. Quem trabalha o recinto não é só pessoal de digressão. É gente da Carto e do Césaré que trata maio como o fogo da sua temporada.
A Cartonnerie diz que o festival parou nessa forma para pensar outra fórmula. Isso não se conta aqui como um fim de cartaz nem como uma promessa. Conta-se como o que foi: um encontro de parque que teve um ciclo e que, ao fechá-lo, não deixou de ser rémois. Quem o visita na memória percebe o corte como um corte, não como uma mudança de alma. O Parc de Champagne continua o Parc de Champagne. As árvores não se mudaram para um estádio.
Não é preciso inventar uma lista mais longa de headliners para explicar o sítio. O sítio explica-se pelo adro que ficou pequeno, pela frase do parque e por um diretor que não quis guardar um nome morto. O público da La Magnifique Society não compra um recinto de marca nacional. Decide deslocar-se até um parque de Reims onde o pop e o indie soam com sotaque de SMAC. Essa estranheza não se improvisa num escritório de Paris.
A La Magnifique Society percebe-se melhor como um Elektricity que se recusou a ficar ao pé da catedral. Entre Cheminaud e Le Goff, entre o adro de 2015 e o parque de 2017, entre Air e Camille, Reims teve um festival de pop, indie e rock que não pediu emprestada a sociedade à La Linea. A La Cartonnerie empresta o ofício; o Parc de Champagne empresta as árvores. Fica uma mutação de maio que aprendeu a ser grande sem deixar de ser, no fundo, uma frase dita ao visitar um parque.
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