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2 edições para explorar · futuro, live e passado
Números, sede e manias da casa
Em La Rochelle a ideia não nasceu num escritório de festival. Nasceu, conta Jean-Louis Foulquier, ao atravessar de noite a esplanade Saint-Jean d'Acre, entre o porto e as torres. Três amores: a cidade, a canção e a festa. Quis uma festa da canção francófona na terra natal e perguntou, a meio a brincar, se aquilo não era loucura. Quem procura o Printemps de Bourges engana-se de costa. Aqui o palco olha o Atlântico, não o Berry. O sal e o cais não são decoração: são o contrato.
Foulquier voltou do Quebec seduzido pelas Francofêtes e pela maneira como os francófonos do Canadá celebravam a língua no verão. Falou com Daniel Colling, o de Bourges, e com amigos de cena — as crónicas citam noites com Higelin e Lavilliers — antes de pedir apoio a Michel Crépeau, presidente da Câmara de então. Em julho de 1985 abriu a primeira edição. As imagens de arquivo recordam ensaios dos Rita Mitsouko e Diane Dufresne nesse arranque. Não era um clone de Bourges colado ao porto. Era La Rochelle a decidir que a chanson podia ocupar o cais.
O palco grande leva hoje o nome de Jean-Louis Foulquier. Até 2015 chamava-se Saint-Jean-d'Acre: o parque de estacionamento ao pé da muralha que liga a Tour de la Lanterne e a Tour de la Chaîne. Essa geografia conta. Entra-se num festival que se ouve com o porto de um lado e a pedra militar do outro. Há mais do que um palco — as crónicas falam de vários — e o público move-se entre o plateau grande e salas ou tendas da cidade. O ouvido é pop, rock e folk de canção francófona, cosmopolita de propósito: confirmados e jovens no mesmo calendário.
Gérard Pont, vindo do Elixir e da Morgane Production, tomou o lugar de Foulquier em meados dos dois mil. A mudança de mãos não mudou o porto. As Francofolies continuaram a ser de julho e de La Rochelle, com um Chantier dedicado a tendências novas da cena francesa e um braço educativo que trabalha com professores e alunos. Isso não é frase de folheto. É a tese de Foulquier feita estrutura: a chanson não se consome só de noite no cais; planta-se também em salas de aula e em palcos pequenos.
A experiência do público segue o formato real. Chega-se de comboio a uma cidade amuralhada, caminha-se para o porto, procura-se a esplanade. De dia a cidade continua cidade: esplanadas, Vieux-Port, vento. Ao anoitecer o palco grande come o horizonte entre torres. Quem vem de longe não encontra um parque de campismo de campo; encontra hotéis, apartamentos e por vezes a decisão de dormir mais longe e voltar. O tempo pode ser o de um julho atlântico: sol de cais ou aguaceiro que pede o casaco. A sobreposição entre palcos obriga a escolher. O mar não se apaga quando o headliner desce.
Os números de assistência, quando as crónicas os citam, não devem virar troféu. Servem para medir que um sonho de homem de rádio num parque de porto chegou a uma escala nacional sem deixar de chamar-se La Rochelle. O público mistura gerações: quem cresceu com a chanson dos anos oitenta e quem chega por um nome de agora. A cidade empresta restaurantes e ruelas; o festival empresta o volume. Essa convivência — cais turístico de dia, recinto de canção de noite — é a estranheza. Não se improvisa numa cidade sem porto.
Não é o Printemps de Bourges. Bourges fica terra dentro e nasceu com outra geografia. Foulquier falou com Colling; não copiou o mapa. As Francofolies de La Rochelle percebem-se pela esplanade, pelo Quebec como faísca e por uma cidade que aceitou que o seu parque de muralha soasse a pop e a rock de língua francesa. Quem confunde as duas datas mistura um festival de interior com um que ouve as marés.
Quem caminha da Tour de la Chaîne à Lanterne ouve como o volume do palco grande empurra contra a pedra e contra a água. Essa fricção — cidade de verão e recinto de canção — não se finge. Francofolies de La Rochelle lê-se melhor como uma travessia noturna que se recusou a ficar anedota. Entre a esplanade Saint-Jean d'Acre e o palco que leva o nome de Foulquier, entre Rita Mitsouko em 1985 e o Chantier das vozes novas, entre Crépeau e Pont, a canção francófona tem um porto que não pediu licença a Paris. La Rochelle empresta as torres e o vento. Foulquier emprestou a frase dos três amores. Fica um julho que soa a chanson com salitre no ar.
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