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2027Le Printemps de Bourges 2027
2026Le Printemps de Bourges 2026
Números, sede e manias da casa
Le Printemps de Bourges é um festival de pop, rock e chanson em Bourges, no departamento do Cher, no centro de França. A primeira edição correu de 6 a 10 de abril de 1977. Impulsionaram-no Daniel Colling, Maurice Frot e Alain Meilland, com a agência Écoute S'il Pleut criada no ano anterior. O plano era reunir «l'autre chanson» numa cidade média de província, nas férias da Páscoa. Não é as Francofolies de La Rochelle. Bourges fica terra dentro, no Berry. O encontro atlântico nasceu depois e olha o porto, não uma praça de interior.
Colling vinha de produzir concertos. Frot tinha sido régisseur de Léo Ferré e conhecia o ofício da canção por dentro. Meilland era cantor e actor de Bourges: abriu a porta da Maison de la Culture e do director, Jean-Christophe Dechico. Em setembro de 1976 testaram o formato com La Halle en fête, três dias debaixo de um mercado coberto. O salto para a Páscoa de 1977 já não era um ensaio. Era um festival de cinco dias numa cidade que não era Paris nem um litoral de verão. As crónicas locais recordam a ideia de Colling: um lugar de criação e de confronto sobre a canção de então, no centro de uma cidade média.
A primeira edição cabia em três sítios. A Maison de la Culture acolhia parte do programa. Um chapiteau montou-se na place Séraucourt. O théâtre Jacques Cœur fechava o triângulo. Em cinco dias houve uns quarenta artistas e uns vinte concertos. No cartaz estavam Jacques Higelin, Bernard Lavilliers, Dick Annegarn, François Béranger e Catherine Ribeiro. Também Colette Magny, Font et Val e Joan Pau Verdier. Não era uma lista de êxitos de rádio. Era a canção cantada à margem dos circuitos grandes: identitária, política, folk, um pop que ainda não se chamava assim. O público caminhava de uma sala para a tenda e da tenda para o teatro.
Essa mistura nomeia a música. O pop e o rock entraram cedo ao lado da chanson e do folk. O mesmo calendário podia juntar um poeta com guitarra e um grupo que subia o volume. Mais tarde as crónicas citam nomes tão distintos como Léo Ferré e NTM, Juliette Gréco e U2, Cesaria Evora e os Têtes Raides. Não é preciso recitá-los todos. Servem para ver que Bourges não ficou um museu de 1977. Cresceu para as musiques actuelles sem largar o fio da língua e da canção de autor. Ouve-se pop, rock e folk, com a chanson como raiz, não como peça de vitrina.
A descoberta de nomes novos é a outra costura. Em 1977 já havia scènes ouvertes para amadores da região. A procura transbordou essas faixas. Em 1985 o festival lançou as Découvertes du Printemps de Bourges. Nasceu o Réseau Printemps: primeiro três antenas, depois uma rede que cobriu França e chegou ao Quebec, à Suíça e à Bélgica. Mais tarde esse dispositivo tomou o nome de iNOUÏS. O mecanismo é simples e raro nesta escala: escuta-se, selecciona-se e programa-se quem ainda não enche uma sala grande. Bourges não se percebe só por Higelin em 1977. Percebe-se também por essa rede que transforma a cidade num filtro nacional de estreias.
A experiência é urbana. Chega-se de comboio ou de carro a uma cidade de pedra e de ruas estreitas. Não há um recinto único de relva. Há uma semana de Páscoa em que se caminha de uma sala a um chapiteau e de um teatro a um café. O tempo de abril no Berry pode ser sol frio ou chuva que pede o casaco. De dia a cidade continua aberta: lojas, praças, ao fundo o palácio de Jacques Cœur. De noite o volume reparte-se por vários pontos. Quem vem de longe procura hotel ou um apartamento, não um parque de campismo de campo. A sobreposição entre salas obriga a escolher. Essa fadiga a pé faz parte do festival.
A 23 de dezembro de 2013 a sociedade C2G tomou a propriedade. Mais tarde Boris Vedel dirigiu a equipa. A mudança de dono não mudou a cidade nem a estação do ano. O Printemps continuou a ser de Bourges e de primavera. As crónicas recordam essa data porque um festival nascido de uma agência de artistas e de uma maison de la culture passou a outra estrutura. Para o público o organigrama conta menos do que o facto. A data ocupa ainda a cidade média que Colling, Frot e Meilland escolheram quando uma cidade de província podia sustentar um festival nacional.
Não é as Francofolies de La Rochelle. Jean-Louis Foulquier falou com Colling; não copiou Bourges. La Rochelle é julho, porto e salitre. Bourges é Páscoa, interior e uma rede de descoberta. Confundir as duas datas mistura uma cidade atlântica com uma cidade do Cher. A palavra «printemps» não é um adorno: marca a semana do calendário escolar em que uma cidade média se enche de concertos. Uma festa de cais pertence ao Atlântico, não ao Berry. Aqui o lugar é a própria cidade, com os três primeiros palcos e os muitos que vieram depois.
O Printemps assenta numa ideia concreta: uma cidade média, uma semana de Páscoa e uma rede que escuta quem ainda não enche estádios. Entre a place Séraucourt e a Maison de la Culture, entre as Découvertes de 1985 e os iNOUÏS, entre Colling e o período C2G, o Berry tem uma semana de abril que não depende de um litoral. Bourges empresta as ruas e as salas. O Réseau Printemps empresta o trabalho de ouvir o que ainda não é famoso. Fica um festival de pop, rock e folk que nasceu para que «l'autre chanson» tivesse província.
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