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Números, sede e manias da casa
Les Plages Électroniques é um festival de house e techno. A primeira noite foi a 5 de julho de 2006, na praia do Palais des Festivals, em Cannes. Puseram-na de pé David Bartoli, Gabrielle De Villoutreys e Ben Geli. Já trabalhavam juntos na Panda Events desde 2004 e assinaram a data como Panda 06. Não é Les Sables Électroniques. Também não é Les Nuits Électriques. Esses encontros têm outros recintos e outra história. Aqui o som sai da areia em frente ao palácio do cinema, em julho, sobre o Mediterrâneo.
Essa primeira noite coincidiu com a meia-final do Mundial entre França e Portugal. Havia cerca de quatrocentas pessoas. A equipa passou o jogo na praia e, depois, os discos. David Lisnard, então presidente do Palais des Festivals, apoiou um evento de gente jovem num edifício que o público associa ao cinema. A primeira temporada foram cinco noites temáticas. O bilhete custava cinco euros. Krikor fechou como primeiro headliner. Não houve sala fechada. O recinto foi a praia do palácio, Croisette às costas e mar à frente.
A Panda Events vinha de 2004. Bartoli, De Villoutreys e Geli não partiam de uma major. Partiam de noites locais e de um Palais disposto a testar um público diferente do da Mostra. O formato daquelas primeiras temporadas era noites de verão, não um fim de semana fechado. Comprava-se um bilhete por data. Descia-se à areia. Ouvia-se house ou techno conforme a noite. O palácio continuava palácio. A praia, durante algumas horas, era pista.
Em 2008 o salto mediu-se com Boys Noize. A equipa esperava cerca de três mil pessoas. Chegaram cerca de dez mil. Esse número não é um troféu. Serve para perceber por que uma praia de festival de cinema deixou de ser um ensaio a cinco euros. O house e o techno de clube cabiam em Cannes se o recinto aguentasse. As crónicas locais recordam essa noite como o momento em que a escala mudou. O Palais e a areia continuaram o mesmo sítio. O número de gente que descia da Croisette, não.
Em 2015 o formato passou de noites de verão a um festival de três dias. A cidade não mudou. Mudou o tempo que o público passava na praia: de uma noite solta a um bloco de julho. Em 2017 Ben Geli e Matthieu Corosine criaram a Allover, a estrutura que tomou a produção. O nome Les Plages Électroniques ficou. A assinatura por trás, não. A origem continua na Panda 06 e nos três fundadores. A produção seguinte leva o nome Allover. As duas camadas cabem na mesma areia.
Há duas irmãs de nome parecido e outro chão. Pistes Électroniques nasceu em 2009 em Isola 2000, na montanha. Martizik montou-se em 2010 na Martinica. Não são este festival. Partilham equipa ou parentesco de produção, não a praia de Cannes. Les Sables Électroniques e Les Nuits Électriques também não. Confundi-los porque todos soam a eletrónica e a plural francês é um erro de costa. Aqui o recinto é a praia do Palais des Festivals. O mar está a um passo. O palácio do cinema, ao outro.
A praia não é uma floresta nem um hipódromo. É areia, orla e um edifício de festival de cinema às costas. De dia Cannes é cidade de passeio. De noite, em julho, o kick chega da beira-mar. Não se caminham quilómetros entre palcos se o dispositivo cabe compacto na areia. Se houver vento, o som mexe-se. Se houver calor, a orla não dá sombra de árvore. Chega-se a pé do centro, de comboio até Cannes ou de carro pela costa. Não há parque de campismo de campo. Há hotel, apartamento ou um comboio de volta. O público mistura veraneantes, gente de Nice e fãs que descem só pelo cartaz.
A fachada do Palais é o mesmo muro que, noutros meses, serve de fundo ao tapete do cinema. Em julho é parede e caixa de som. Não há trilho de floresta. Há a Croisette, depois uma escada ou uma rampa até à areia. Os sapatos enchem-se de grão. O mar está a um passo e, se houver ondulação, ouve-se entre temas. Depois do último set a cidade continua a ser Cannes: hotéis, restaurantes tardios, estação. O festival não inventa uma aldeia. Ocupa uma praia que a cidade já tem, à frente do edifício mais fotografado daquela costa.
Les Plages Électroniques lê-se como o festival que três produtores da Panda 06 montaram na praia do Palais, no mesmo dia em que a França jogava uma meia-final, com quatrocentas pessoas e cinco euros. O house e o techno cabem nessa frase. Também cabem Krikor, o transbordo do Boys Noize em 2008 e a passagem a três dias em 2015. Isola 2000 e a Martinica são outras costas e outras cotas. Cannes presta a areia do cinema. O resto é pista, julho e mar.
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