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Números, sede e manias da casa
LEVITATION FRANCE é um festival de rock e indie em Angers, no Maine-et-Loire. A primeira edição foi a 20 e 21 de setembro de 2013 no Le Chabada. Organiza-o a Radical Production, a estrutura de Angers de Doudou, que também trabalha no Rock en Seine. O encontro é a edição francesa do LEVITATION de Austin, o festival texano que primeiro se chamou Austin Psych Fest. Não é o Levitate, o evento de Marshfield. Também não é o festival-mãe do Texas. Aqui o público entra numa sala de musiques actuelles no Loire.
A ligação entre as duas cidades já existia. Austin e Angers tornaram-se cidades gémeas em 2011. A Austin-Angers Music e a Câmara de Angers empurraram o intercâmbio. Em Austin, The Reverberation Appreciation Society — com Alex Maas, dos Black Angels, e Rob Fitzpatrick — montava o Psych Fest desde 2008. Em Angers coincidia um facto prático: o booker francês dos Black Angels era a Radical Production, com sede na mesma cidade. François Delaunay, então no Chabada, falava de uma ponte duradoura com a indústria musical de Austin, não de um fim de semana isolado. O Chabada é ao mesmo tempo centro cultural com dinheiro público e sala privada. Em 2013 cabiam cerca de novecentas pessoas. Era a maior sala de Angers.
O primeiro fim de semana esgotou as duas noites. As crónicas situam cerca de duas mil pessoas no conjunto. Havia dezoito atuações de sete países. O passe de dois dias custava quarenta euros. Havia dois palcos dentro do edifício. Na sexta fecharam os Black Angels. No sábado vinha outro bloco de rock psicadélico e indie de guitarra. Night Beats e The UFO Club, já vistos em Austin na primavera, cruzaram o Atlântico. O formato era apertado: sem parque de campismo, sem recinto de vários quilómetros. Um boulevard, uma sala e um público de pé entre dois palcos.
O cartaz de 2013 explica a música. Os Black Angels trouxeram o rock psicadélico de Austin que o festival texano já conhecia. Dead Meadow e Dead Skeletons cobriram o mesmo terreno, mais áspero. Beak>, o projeto de Geoff Barrow, e Damo Suzuki, voz histórica dos Can, puxaram o indie para o kraut e a improvisação. Tamikrest chegou do Sahara com guitarras que não são do Texas nem do Loire, mas cabem num cartaz psicadélico. Mars Red Sky e The Telescopes acrescentaram rock pesado e drone britânico. Lola Colt, Camera, Wall of Death, Lonely Walk, Neue Wilde, Elephant Stone e The Blondi’s Salvation preencheram o resto das horas. Rock e indie não são um rótulo solto. São o que soou nessas duas noites.
À volta dos palcos havia outra camada. Philippe Thieyre, jornalista e colecionador, levou cartazes e discos clássicos ao Grand Théâtre d’Angers, numa mostra sobre as raízes do psicadelismo em São Francisco, Los Angeles e Austin. Bob Mustachio, designer de luzes do festival texano, tratou das visuais do palco principal. Robin Gnista desenhou os cartazes comemorativos de sexta e sábado. No cinema Les 400 Coups passaram When You’re Strange e Easy Rider, com comentário de Delaunay, Xavier Massé e Thieyre. O fim de semana não era só um concerto importado. Era uma sala, uma exposição e uma cidade gémea a emprestar as suas instituições.
A experiência infere-se do recinto. Chega-se a Angers de comboio a partir de Paris, a cerca de trezentos quilómetros. Caminha-se até ao Boulevard du Doyenné. Entra-se numa sala, não num rancho. De dia o Chabada é um edifício de musiques actuelles. De noite os dois palcos obrigam a escolher: o nome grande ou a sala ao lado. Em setembro o Loire pode ser suave ou já frio. Não há lama de campo. Há fila à porta e uma lotação que se sente quando as duas noites estão cheias. Quem conhece o Psych Fest de Austin sente falta do céu aberto. Quem vive em Angers ganha um festival à medida da cidade.
Com os anos o formato saiu do betão. Houve edições no exterior do Chabada, no Quai e no parque de estacionamento da sala. Não foi um adorno. Foi a resposta a uma sala que, para um público maior, ficava curta. Em 2025 o encontro plantou-se nas margens do Lac de Maine, ainda em Angers. As crónicas falam de cerca de cinco mil pessoas, de um lago, de pó e de um palco grande. A equipa local mantém-se: Radical Production, o Chabada e a association Levitation France, que Delaunay preside. O rock e o indie não mudaram de cidade. Mudaram de chão: da sala para a margem.
LEVITATION FRANCE lê-se melhor como a edição francesa que Angers montou em 2013 com Austin, não como o festival texano nem como o Levitate de Marshfield. A Radical Production guarda a produção. O Chabada guardou as primeiras noites. O Lac de Maine guardou o salto de escala. Não é preciso atravessar o Texas para ouvir os Black Angels num cartaz psicadélico. Aqui o chão é uma sala de Angers e, mais tarde, um lago. O público cabe primeiro em centenas e depois em milhares. A história que importa é um setembro de 2013 esgotado duas noites, que deixou no Loire um festival de rock e indie com nome emprestado e recinto próprio.
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