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2025Canadian Music Week Toronto 2025
Números, sede e manias da casa
Canadian Music Week fazia mais sentido depois do fim da tarde, quando a indústria musical começava a sair das salas de conferência e se espalhava por Toronto. Um executivo que havia passado a manhã discutindo streaming, rádio ou direitos podia terminar a noite num club para poucas centenas de pessoas assistindo a uma banda ainda sem contrato. Artistas tocavam diante de fãs, managers, agentes, jornalistas e outros músicos sem necessariamente saber quem estava no fundo da sala. Essa mistura separava CMW de um festival convencional. Não existia um único terreno capaz de conter tudo e nenhum main stage resumiria corretamente a experiência. Toronto era a venue, e descobrir alguma coisa antes dos outros fazia parte da promessa.
Na origem, nem sequer havia festival. No começo dos anos 1980, David Farrell e Patricia Dunn-Farrell publicavam The Record, veículo profissional dedicado a uma indústria canadense muito ligada a rádio, gravadoras, distribuição, promoção e relações pessoais. Desse ambiente surgiu uma conference. Neill Dixon entrou cedo, inicialmente trabalhando speakers e panels, depois como parceiro. Durante anos o encontro acompanhou o período dos Juno Awards e permaneceu principalmente profissional. Em 1991 foi acrescentado um festival público de showcases. A conversa sobre novos artistas podia então começar durante o dia num hotel e terminar algumas horas depois diante desses mesmos músicos num club.
A mudança passou por um episódio difícil. Em 1991, o encontro acompanhou os Junos até Vancouver e sofreu perdas significativas, reforçando a percepção de que Toronto era seu centro natural. Nos primeiros anos da década seguinte, Dixon assumiu o controle e Canadian Music Week se consolidou como identidade independente. Separar-se dos Junos permitiu escolher datas próprias e transformar Toronto em destino para delegados internacionais. A conference continuou essencial, mas o festival cresceu utilizando clubs, theatres e concert halls espalhados pela cidade. Em vez de construir uma cidade temporária cercada por grades, CMW ocupava uma infraestrutura musical que já existia durante o resto do ano.
Por isso cada visitante construía sua própria geografia. Horseshoe Tavern, Lee’s Palace, El Mocambo, Rivoli, The Opera House, Phoenix Concert Theatre e muitas outras salas fizeram parte de diferentes épocas. Em uma única noite era impossível assistir a tudo. Perder shows fazia parte da experiência, assim como abandonar um planejamento por causa de uma recomendação recebida durante um panel, numa recepção ou na fila de outra apresentação. O público não caminhava apenas entre stages; atravessava bairros reais de Toronto. A cidade permanecia ativa ao redor do festival, e a descoberta musical surgia tanto da curadoria quanto da facilidade com que um encontro casual podia mudar a noite.
Esse formato dava aos emergentes um peso especial. Em seus maiores anos, CMW apresentou centenas e às vezes quase mil performers. A quantidade podia parecer excessiva, mas a concentração de profissionais modificava o significado de um show pequeno. Managers, A&R, booking agents, promoters, rádio, imprensa e compradores de festivais estavam todos temporariamente na mesma cidade. Nenhuma apresentação garantia contrato ou sucesso, mas um showcase podia criar encontros que normalmente levariam meses. Alguns artistas que passaram por CMW depois chegaram ao topo; muitos outros permaneceram underground. A incerteza fazia parte do interesse. Um público reduzido podia estar diante de uma futura estrela ou simplesmente de uma excelente banda desconhecida que jamais teria aquela mesma oportunidade novamente.
Durante o dia, Canadian Music Week se transformou também numa instituição do próprio negócio. Touring, publishing, rádio, management, sync, tecnologia e direitos eram debatidos em panels e keynotes. The Indies, Live Music Industry Awards, Canadian Sync Awards e Radiodays North America acrescentavam premiações e encontros especializados. Para fãs, CMW podia ser uma maratona de shows; para artistas, uma plataforma profissional; para executivos, uma conference internacional. Em determinada fase, a organização falava em mais de mil performers em mais de sessenta venues e milhares de delegados estrangeiros. Era um festival enorme, mas distribuído demais para que qualquer palco individual mostrasse sua dimensão completa.
A última edição chamada Canadian Music Week aconteceu de 1º a 8 de junho de 2024. Mais de 250 artistas tocaram em mais de vinte e cinco venues. Walk Off The Earth, Charlotte Day Wilson, TESTPILOT, Jauz, Dallas Smith, KILLY, Tekno, Allie X e Christone “Kingfish” Ingram mostravam mais uma vez uma programação que não precisava escolher entre pop, rock, eletrônica, country ou R&B. A conference utilizava o Westin Harbour Castle como base. Porém, a notícia realmente histórica daquela semana veio fora dos palcos: Neill Dixon anunciou a aposentadoria e Loft Entertainment e Oak View Group adquiriram o evento.
Em novembro ficou claro que a mudança seria maior que uma troca administrativa. Canadian Music Week deixou de ser o nome principal e, em maio de 2025, Departure Festival + Conference estreou como uma reimaginação declarada de CMW. Música e negócio permaneceram, enquanto comedy, technology, food e outras áreas criativas ampliaram o formato. Departure voltou em 2026, consolidando a nova identidade. Canadian Music Week, portanto, não foi simplesmente cancelado. Ele se transformou. Durante décadas havia ensinado uma indústria a passar o dia discutindo para onde a música iria e a noite caminhando por Toronto tentando ouvi-la chegar. Desde 2025, essa procura continua com outro nome.
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