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Durante muitos anos, uma das cenas que melhor definia o CarFest acontecia numa estrada particular dentro de uma fazenda em Hampshire. Um carro histórico de Fórmula 1, um supercarro ou alguma máquina improvável passava diante de famílias espalhadas ao lado da pista; horas depois, motores silenciados, boa parte das mesmas pessoas estava reunida diante do palco principal cantando músicas pop. Essa troca de linguagem explica o festival melhor do que classificá-lo como evento automobilístico ou musical. Chris Evans o imaginou como a materialização de seu fim de semana perfeito — carros, comida, música e família — mas incluiu desde o início uma condição que acabaria funcionando como o eixo de tudo: a diversão precisava gerar dinheiro para instituições beneficentes voltadas às crianças.
A ideia ganhou forma em 2012, quando Jody Scheckter, campeão mundial de Fórmula 1 de 1979, ofereceu Laverstoke Park Farm para receber o primeiro CarFest South. Poucas semanas depois veio CarFest North, em Cholmondeley Castle. O modelo inicial já continha quase todo o DNA posterior. Os automóveis precisavam estar em movimento: carros de corrida, clássicos, veículos da coleção de Evans e máquinas curiosas participavam de demonstrações em vez de permanecer apenas expostos. Ao redor surgiam música, comida e atrações familiares. Isso modificava o perfil do público. Um apaixonado por automobilismo podia passar horas no paddock, enquanto alguém que tinha ido apenas para acompanhar os filhos encontrava razões próprias para ficar. Era uma reunião de interesses diferentes, não uma comunidade especializada.
North e South funcionaram durante anos como as duas versões regionais do mesmo projeto. A edição do norte passou por diferentes espaços em Cheshire, incluindo Oulton Park e Bolesworth, enquanto Laverstoke permaneceu como residência fixa da versão sul. A fazenda se tornou especialmente importante porque determinava o ritmo do evento. A pista temporária atravessava campos ocupados por clubes de carros, paddocks e brincadeiras; camping mantinha famílias ali por vários dias; no fim da tarde, a atividade automotiva diminuía e o palco musical assumia o centro. Em 2015, Jody Scheckter podia pilotar antigos carros de Fórmula 1 no mesmo fim de semana em que Take That e Paloma Faith apareciam diante do público. A combinação parecia improvável somente fora do CarFest.
A música cresceu bastante sem tomar posse completa da identidade. Stereophonics, The Jacksons, Kaiser Chiefs, Culture Club, Rag’n’Bone Man, Rick Astley e muitos outros passaram pelo palco principal. As escolhas costumam privilegiar artistas capazes de atravessar gerações: pop britânico, rock acessível, soul e repertórios reconhecíveis por pessoas que chegaram ao festival por razões muito diferentes. O show da noite acaba funcionando como um ponto de reencontro depois de um dia fragmentado. Ao mesmo tempo, chefs famosos, atividades infantis, bem-estar, comédia e participações de nomes da televisão e do esporte foram ganhando espaço. A ideia original de carros, música, comida e família se expandiu sem que nenhum desses elementos precisasse expulsar os outros.
Em sua fase recente, essa diversidade passou a ser organizada quase como uma coleção de festivais menores. KidsFest concentra entretenimento para crianças; FoodFest reúne chefs, demonstrações e gastronomia; SpaFest trabalha saúde e bem-estar; RetroFest explora nostalgia; StarFest leva personalidades e comédia ao programa; os carros mantêm um universo próprio. Essa estrutura reconhece uma característica simples das famílias: seus integrantes raramente querem passar doze horas fazendo exatamente a mesma coisa. É possível dividir o grupo, explorar áreas diferentes e se reencontrar para comer ou assistir ao show principal. O camping reforça essa liberdade. Em vez de tentar completar uma programação impossível, o público monta seu próprio fim de semana dentro de um evento que deliberadamente oferece coisas demais para uma única pessoa.
O propósito beneficente é o elemento que impede essa variedade de parecer apenas uma grande feira de entretenimento. CarFest começou apoiando BBC Children in Need e gradualmente incorporou outras organizações. Mais de 27 milhões de libras foram arrecadados desde 2012. As instituições beneficiárias participam fisicamente do festival e a arrecadação continua além do simples ato de comprar ingresso, com ações e iniciativas durante o evento. Em 2026, dez por cento do valor de cada ingresso e todo o lucro do CarFest serão destinados a causas beneficentes. Assim, carros raros, músicos conhecidos e celebridades têm uma função adicional: atrair mais pessoas para ampliar o fundo distribuído posteriormente. Chris Evans continua sendo a figura que conecta esse objetivo às diferentes áreas do evento.
A organização territorial mudou depois de 2020. Naquele ano, chegou a ser planejada a união de North e South num CarFest United, antes de a pandemia provocar o cancelamento. As duas edições retornaram posteriormente, mas CarFest North aconteceu pela última vez em 2022. A partir de 2023 o projeto passou a se concentrar em Laverstoke, reunindo todo o público num único fim de semana anual. A despedida da fazenda aconteceu entre 22 e 24 de agosto de 2025. Travis, Rita Ora e Madness lideraram as noites, acompanhados por nomes como Busted, Squeeze, Tom Walker, Kim Wilde, The Boomtown Rats, Lightning Seeds e Seasick Steve. Depois de mais de uma década, aquele cenário agrícola que havia ensinado o festival a existir encerrou seu papel.
Entre 28 e 30 de agosto de 2026, CarFest fará sua estreia no Silverstone Circuit. A mudança parece ao mesmo tempo enorme e óbvia: durante anos foi necessário construir uma pista dentro de uma fazenda; agora o festival chega à casa do Grande Prêmio da Grã-Bretanha. O novo espaço permite mais carros, demonstrações maiores e infraestrutura permanente, enquanto Tom Jones, Jessie J, Nile Rodgers & CHIC, Sugababes, Rick Astley, Sophie Ellis-Bextor e outros levam adiante o lado musical. Silverstone certamente pode tornar CarFest maior e mais eficiente. O que ainda precisa ser demonstrado é algo menos técnico. Laverstoke tinha charme justamente porque carros de corrida, oficinas culinárias, crianças e concertos gigantes pareciam ocupar um lugar onde nada disso deveria caber. Em Silverstone, os carros finalmente estarão em casa; a personalidade do próximo capítulo dependerá de fazer todo o restante parecer igualmente à vontade.
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